Em Gaza, um longo caminho de recuperação para uma mulher que perdeu um olho e a filha

As feridas psicológicas se somam aos ferimentos físicos de Najwa após a perda de sua filha em um ataque aéreo israelense.

27/07/2026

Najwa Abu Atiwi perdeu um olho em um ataque aéreo israelense em setembro de 2024, que também matou sua filha pequena, Hajar. [Lina Ghassan Abu Zayed/Al Jazeera]

Por Lina Ghassan Abu Zayed*

Quando Najwa Abu Atiwi abriu os olhos em 11 de outubro de 2024, após semanas em coma, seu primeiro pensamento não foi a extensão de seus ferimentos, mas o desejo de se ver. Ela sabia que algo significativo havia mudado, mas não compreendia o quanto sua aparência tinha sido alterada após o ataque aéreo israelense que atingiu sua casa no campo de Nuseirat, no centro de Gaza.

Najwa, hoje com 42 anos, pediu repetidamente às pessoas ao seu redor que a deixassem ver seu rosto, mas elas adiaram o momento, temendo o choque que isso lhe causaria.

“Eu continuava pedindo para ver como eu estava, mas me davam analgésicos e medicamentos para me acalmar”, conta Najwa.

Mais tarde, os médicos lhe disseram a verdade: ela havia perdido um dos olhos, e eles ainda tentavam salvar o outro, que sofrera uma hemorragia interna.

Quando finalmente se olhou no espelho pela primeira vez, foi quase como se outra pessoa estivesse olhando de volta para ela. Seu rosto, marcado por ferimentos graves e fraturas, havia mudado drasticamente.

“Eu me olhei e não reconheci quem eu era. Senti como se estivesse olhando para outra pessoa e perguntei: ‘Quem é essa?’”, relembra.

O trauma só aumentaria depois, quando Najwa soube que sua filha, Hajar, também havia sido morta no ataque aéreo que a levou ao hospital. Hajar estava a apenas alguns dias de completar seis anos.

Mas, durante um mês após despertar do coma, Najwa não soube da perda trágica. Enquanto esteve na unidade de terapia intensiva, sonhava com Hajar e perguntava repetidamente às pessoas ao seu redor se sua filha estava bem. Mais tarde, descobriu a devastadora verdade, sem jamais ter tido a chance de ver a filha uma última vez ou se despedir dela — uma perda que permanece ao lado da dor física de seus ferimentos.

Najwa enfrentou um longo caminho de cirurgias, tratamento e reabilitação. Placas e telas metálicas foram implantadas em seu rosto, e ela continua tendo dificuldades para abrir a mandíbula, falar e se alimentar.

“Ainda não consigo comer normalmente. Minha alimentação se limita a sopas, água, sucos e leite”, diz Najwa. Ela ainda espera a oportunidade de viajar para receber tratamento especializado, depois que médicos lhe informaram que alguns dos procedimentos de que necessita não estão disponíveis em Gaza — resultado de anos de bloqueio israelense e da destruição provocada pela guerra genocida de Israel contra Gaza, que matou mais de 73 mil pessoas.

Najwa Abu Atiwa enfrentou um longo caminho de recuperação de seus ferimentos, processo que ainda continua em andamento. [Lina Ghassan Abu Zayed/Al Jazeera]

Ferimentos complexos

O doutor Ayman Saidam, cirurgião consultor especializado em cirurgia oculoplástica, afirma que o caso de Najwa está entre os mais complexos que já tratou, envolvendo traumas severos no olho, no rosto e na mandíbula.

Quando ela chegou para tratamento, havia sofrido uma lesão no olho direito que resultou em sua perda, além de fraturas nos ossos faciais e lacerações nas pálpebras. O outro olho também sofreu lesões ao redor da órbita, comprometendo sua capacidade de fechar completamente a pálpebra, o que criou um risco adicional para sua visão.

Saidam explica que o tratamento desses ferimentos não pode começar apenas com procedimentos estéticos, porque o problema principal está na estrutura facial danificada.

“A cirurgia estética ocular em casos como este deve primeiro se basear na reconstrução maxilofacial [restauração do rosto, mandíbula, pescoço e boca], porque procedimentos estéticos sozinhos não conseguem corrigir deformidades estruturais”, afirma.

Durante a guerra de Israel, Saidam tratou muitos ferimentos causados por estilhaços e explosões, incluindo fraturas orbitárias (ossos quebrados ao redor do olho), lacerações nas pálpebras, perda de tecido facial e lesões que resultaram na perda do olho ou exigiram cirurgias reconstrutivas complexas.

Ele explica que alguns pacientes necessitam de múltiplas etapas de tratamento antes de receberem uma prótese ocular ou recuperarem parte de sua aparência anterior. A reconstrução facial não é um procedimento único, mas uma série de intervenções em que cada etapa depende do sucesso da anterior.

“Em Gaza, há médicos qualificados com o conhecimento e a experiência necessários, mas o principal problema é a falta de recursos, equipamentos e suprimentos médicos”, diz Saidam.

Ele explica que a escassez de determinados materiais utilizados nas cirurgias, incluindo alguns parafusos e colírios, pode atrasar etapas do tratamento e retardar o processo de recuperação. Muitas dessas carências resultam das restrições israelenses à entrada de importações em Gaza, que continuaram apesar do “cessar-fogo” de outubro, violado regularmente por Israel.

Para Najwa, a jornada do tratamento ainda continua. Ela recebeu encaminhamento para tratamento no exterior, mas segue aguardando autorização para deixar Gaza, enquanto convive diariamente com dor, dificuldades de locomoção e desafios para chegar aos hospitais.

Seu caso não é isolado. A guerra de Israel deixou milhares de pessoas em Gaza com ferimentos complexos que exigem tratamento e reabilitação de longo prazo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de um quarto dos ferimentos registrados em Gaza são classificados como transformadores da vida. Mais de 50 mil lesões exigem serviços de reabilitação de longo prazo. Entre elas estão amputações, queimaduras graves e outros traumas complexos causados por bombardeios e explosões.

As feridas psicológicas da guerra

Najwa não foi a única paciente a necessitar de apoio psicológico após seus ferimentos. Muitas pessoas que sofreram desfiguração facial causada por bombardeios, incluindo queimaduras graves, fraturas faciais, perda de um olho ou lesões por estilhaços, enfrentam sofrimentos psicológicos que podem ser tão dolorosos quanto suas feridas físicas.

O doutor Hassan Abu Shawish, psicólogo da Clínica de Saúde Mental de Deir el-Balah que tratou Najwa, afirma que seu caso estava entre os mais difíceis porque várias experiências traumáticas ocorreram ao mesmo tempo: o ferimento físico, a perda da filha e a mudança drástica em sua aparência facial.

Ele explica que lesões desse tipo podem levar ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtornos de ansiedade, depressão e distorções da imagem corporal, nas quais os pacientes têm dificuldade para aceitar sua nova aparência. Isso pode levar alguns sobreviventes a se afastarem da vida social ou evitarem interações com outras pessoas.

O cuidado psicológico, afirma ele, é uma parte essencial da recuperação, ao lado das cirurgias reconstrutivas, ajudando os pacientes a se adaptarem às mudanças físicas, reconstruírem sua confiança e retornarem à sociedade.

Além da sobrevivência

Antes de seus ferimentos, Najwa levava uma vida completamente diferente. Trabalhava, saía de casa e estava cercada por familiares e relações sociais. Agora, tenta reconstruir sua vida enquanto carrega a dor da perda da filha e lida com as profundas mudanças em seu rosto e em seu corpo.

A perda de Hajar permanece como uma das feridas mais profundas que Najwa carrega. Ela descreve a filha como uma criança alegre, inteligente e dedicada, e diz que ela se parecia com a mãe — uma semelhança que torna sua ausência ainda mais dolorosa.

Najwa afirma que vê Hajar constantemente em seus sonhos. “Na minha mente, minha filha está viajando e vai voltar”, diz. “Todos os dias eu pergunto: quando ela vai voltar?”

Najwa tenta deixar a dor da perda de lado. Sua jornada desde o ataque aéreo tem sido longa — recuperar aquilo que ainda pode ser resgatado em sua vida: seu rosto, sua capacidade de falar e comer, sua confiança e sua conexão com o mundo ao seu redor.

Enquanto espera a oportunidade de viajar e concluir seu tratamento, ela se agarra à esperança de que um dia conseguirá recuperar um pouco mais daquilo que a guerra lhe tirou.

“Quero voltar à minha vida de antes e recuperar a bela personalidade que eu conhecia em mim mesma”, afirma.

* Graduada na Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade Islâmica de Gaza. Reportagem publicada na Al Jazeera em 23/07/2026.

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