Exército de “israel” tem unidade de propaganda encarregada de tentar ligar jornalistas ao Hamas

Tratando a mídia como um campo de batalha, uma unidade secreta de inteligência militar vasculhou Gaza em busca de material para reforçar a propaganda sionista — incluindo alegações questionáveis para justificar o extermínio de palestinos

20/08/2025

Corpos de palestinos são removidos após a explosão no Hospital Árabe Al-Ahli, Cidade de Gaza, 18 de outubro de 2023. (Mohammed Zaanoun)

Por Yuval Abraham*

O exército israelense operou uma unidade especial chamada “Célula de Legitimação”, encarregada de coletar informações de inteligência em Gaza que pudessem reforçar a imagem de Israel na mídia internacional, segundo três fontes de inteligência que falaram à revista +972 e ao Local Call e confirmaram a existência da unidade.

Criada após 7 de outubro, a unidade buscava informações sobre o suposto uso de escolas e hospitais pelo Hamas para fins militares, e sobre lançamentos fracassados de foguetes por grupos armados palestinos que teriam atingido civis no enclave. Também lhe foi atribuída a tarefa de identificar jornalistas baseados em Gaza que pudessem ser retratados como agentes disfarçados do Hamas, em uma tentativa de atenuar a crescente indignação global com o assassinato de repórteres por Israel — o mais recente deles foi o jornalista da Al Jazeera, Anas Al-Sharif, morto em um bombardeio aéreo israelense na semana passada.

De acordo com as fontes, a motivação da Célula de Legitimação não era segurança, mas relações públicas. Movidos pela raiva de que repórteres de Gaza estavam “manchando [o nome de Israel] diante do mundo”, seus membros estavam ansiosos para encontrar um jornalista que pudessem vincular ao Hamas e marcar como alvo, disse uma das fontes.

A fonte descreveu um padrão recorrente no trabalho da unidade: sempre que a crítica contra Israel na mídia se intensificava em determinado assunto, a Célula de Legitimação era instruída a encontrar informações de inteligência que pudessem ser desclassificadas e usadas publicamente para contrapor a narrativa.

“Se a mídia global está falando que Israel matou jornalistas inocentes, então imediatamente há uma pressão para encontrar um jornalista que talvez não seja tão inocente — como se isso de alguma forma tornasse aceitável matar os outros 20”, disse a fonte de inteligência.

Muitas vezes, era o escalão político israelense que ditava ao exército em quais áreas de inteligência a unidade deveria focar, acrescentou outra fonte. As informações coletadas pela Célula de Legitimação também eram transmitidas regularmente aos norte-americanos por meio de canais diretos. Oficiais de inteligência disseram que lhes foi dito que seu trabalho era vital para permitir que Israel prolongasse a guerra.

“A equipe coletava regularmente informações que pudessem ser usadas para hasbará — digamos, um estoque de armas do [Hamas] encontrado em uma escola — qualquer coisa que pudesse reforçar a legitimidade internacional de Israel para continuar lutando”, explicou outra fonte. “A ideia era [permitir que o exército] operasse sem pressão, para que países como os Estados Unidos não parassem de fornecer armas.”

A unidade também buscava provas que ligassem a polícia de Gaza ao ataque de 7 de outubro, a fim de justificar o ataque contra ela e o desmantelamento da força de segurança civil do Hamas, disse uma fonte familiarizada com o trabalho da Célula de Legitimação.

Duas das fontes de inteligência relataram que, em pelo menos um caso desde o início da guerra, a Célula de Legitimação deturpou informações de inteligência de forma a permitir a falsa caracterização de um jornalista como membro da ala militar do Hamas. “Eles estavam ansiosos para rotulá-lo como alvo, como terrorista — para dizer que era aceitável atacá-lo”, recordou uma fonte. “Diziam: de dia ele é jornalista, de noite é comandante de pelotão. Todos ficaram empolgados. Mas houve uma cadeia de erros e de cortes de caminho.”

“No fim, perceberam que ele era realmente jornalista”, continuou a fonte, e o jornalista não foi atacado.

Um padrão semelhante de manipulação é evidente nas informações apresentadas sobre Al-Sharif. De acordo com documentos divulgados pelo exército, que não foram verificados de forma independente, ele teria sido recrutado pelo Hamas em 2013 e permanecido ativo até ser ferido em 2017 — o que significa que, mesmo que os documentos fossem autênticos, eles sugerem que ele não desempenhou nenhum papel na guerra atual.

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O mesmo ocorre no caso do jornalista Ismail Al-Ghoul, morto em um bombardeio israelense em julho de 2024, junto com seu cinegrafista na Cidade de Gaza. Um mês depois, o exército alegou que ele era um “operativo da ala militar e terrorista Nukhba”, citando um documento de 2021 supostamente obtido de um “computador do Hamas”. No entanto, esse documento dizia que ele recebeu sua patente militar em 2007 — quando tinha apenas 10 anos, e sete anos antes de supostamente ter sido recrutado pelo Hamas.

‘Encontrar o máximo de material possível para hasbará

Um dos primeiros esforços de destaque da Célula de Legitimação ocorreu em 17 de outubro de 2023, após a explosão mortal no Hospital Al-Ahli, na Cidade de Gaza. Enquanto a mídia internacional, citando o Ministério da Saúde de Gaza, noticiava que um ataque israelense havia matado 500 palestinos, autoridades israelenses afirmaram que a explosão foi causada por um foguete mal disparado pela Jihad Islâmica e que o número de mortos era muito menor.

No dia seguinte à explosão, o exército divulgou uma gravação que a Célula de Legitimação havia localizado em interceptações de inteligência, apresentada como uma ligação telefônica entre dois operativos do Hamas culpando a Jihad Islâmica pelo incidente. Muitos veículos internacionais consideraram a alegação plausível, incluindo alguns que realizaram suas próprias investigações, e a divulgação causou um duro golpe à credibilidade do Ministério da Saúde de Gaza — celebrado dentro do exército israelense como uma vitória da célula.

Um ativista palestino de direitos humanos disse à +972 e ao Local Call, em dezembro de 2023, que ficou chocado ao ouvir sua própria voz na gravação, que segundo ele era apenas uma conversa banal com outro amigo palestino. Ele insistiu que nunca foi membro do Hamas.

Uma fonte que trabalhou com a Célula de Legitimação disse que publicar material classificado como uma ligação telefônica era altamente controverso. “Definitivamente não está no DNA da Unidade 8200 expor nossas capacidades por algo tão vago como a opinião pública”, explicou.

Desmentindo o mentiroso profissional Rafael Rozenszajn

Ainda assim, as três fontes de inteligência disseram que o exército tratava a mídia como uma extensão do campo de batalha, permitindo desclassificar informações sensíveis para divulgação pública. Mesmo o pessoal de inteligência fora da Célula de Legitimação foi instruído a sinalizar qualquer material que pudesse ajudar Israel na guerra de informação. “Havia essa frase: ‘Isso é bom para a legitimidade’”, recordou uma fonte. “O objetivo era simplesmente encontrar o máximo de material possível para servir aos esforços de hasbará.”

Após a publicação deste artigo, fontes oficiais de segurança confirmaram à +972 e ao Local Call que várias “equipes de pesquisa” foram criadas dentro da inteligência militar israelense nos últimos dois anos com o objetivo de “expor as mentiras do Hamas”. Disseram que a meta era “desacreditar” jornalistas que relatavam sobre a guerra em redes de transmissão “de forma supostamente confiável e precisa”, mas que na verdade, segundo eles, fariam parte do Hamas. De acordo com as fontes, essas equipes de pesquisa não desempenham papel na seleção de alvos individuais a serem atacados.

‘Nunca hesitei em transmitir a verdade’

Em 10 de agosto, o exército israelense matou seis jornalistas em um ataque que admitiu abertamente ter como alvo o repórter da Al Jazeera, Anas Al-Sharif. Dois meses antes, em julho, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) havia alertado que temia por sua vida, dizendo que ele estava “sendo alvo de uma campanha difamatória do exército israelense, que ele acredita ser um prenúncio de seu assassinato.”

Depois que Al-Sharif publicou, em julho, um vídeo viral em que aparecia chorando ao cobrir a crise da fome em Gaza, o porta-voz do exército israelense em árabe, Avichay Adraee, divulgou três vídeos diferentes atacando-o, acusando-o de “propaganda” e de participar da “falsa campanha de fome do Hamas”.

Al-Sharif identificou uma ligação entre a guerra midiática de Israel e a militar. “A campanha de Adraee não é apenas uma ameaça midiática ou uma destruição de imagem; é uma ameaça real à vida”, disse ele ao CPJ. Menos de um mês depois, ele foi morto, com o exército apresentando o que dizia serem informações de inteligência desclassificadas sobre sua filiação ao Hamas para justificar o ataque.

O exército já havia alegado, em outubro de 2024, que seis jornalistas da Al Jazeera, incluindo Al-Sharif, eram operativos militares, acusação que ele negou veementemente. Tornou-se o segundo dessa lista a ser atacado, depois do repórter Hossam Shabat. Desde a acusação de outubro, seu paradeiro era bem conhecido, levando muitos observadores a questionar se o assassinato de Al-Sharif — que relatava regularmente da Cidade de Gaza — fazia parte do plano de Israel de impor um apagão midiático antes de sua preparação militar para capturar a cidade.

Em resposta a perguntas da revista +972 sobre o assassinato de Al-Sharif, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel reiterou que “as FDI atacaram um terrorista da organização terrorista Hamas que operava sob o disfarce de jornalista da rede Al Jazeera no norte da Faixa de Gaza”, e alegou que o exército “não ataca intencionalmente indivíduos não envolvidos e jornalistas em particular, tudo de acordo com o direito internacional.”

Antes do ataque, acrescentou o porta-voz, “foram tomadas medidas para reduzir a chance de atingir civis, incluindo o uso de armas de precisão, observações aéreas e informações adicionais de inteligência.”

Com apenas 28 anos, Al-Sharif havia se tornado um dos jornalistas mais conhecidos de Gaza. Ele está entre 186 repórteres e trabalhadores da mídia mortos no enclave desde 7 de outubro, segundo o CPJ — o período mais mortal para jornalistas desde que o grupo começou a coletar dados em 1992. Outras organizações apontam que o número de mortos pode chegar a 270.

“Se estas palavras chegarem até vocês, saibam que Israel conseguiu me matar e silenciar minha voz”, escreveu Al-Sharif em sua última mensagem, publicada postumamente em suas contas de redes sociais. “Eu vivi a dor em todos os seus detalhes, provei o sofrimento e a perda muitas vezes, mas nunca hesitei em transmitir a verdade como ela é, sem distorção ou falsificação.”

* Reportagem publicada em 14/08/2025 na +972 Magazine.

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