Número de soldados israelenses que pedem para deixar Gaza traumatizados por executar crianças bate recorde

"Três vezes urinei em mim como uma criança de quatro anos. Uma vez até sonhei que assassino minha família. Acordo cinco, seis vezes por noite. Vejo novamente todos aqueles que matei"

16/09/2025

Soldados israelenses invadindo Beit Hanoun. (Foto: Reprodução/Anadolu)

Por Tom Levinson*

A permanência contínua nas zonas de combate em Gaza esgota a mente de muitos. Outros já não conseguem mais suportar a matança arbitrária. Segundo estimativas, desde o início da guerra milhares de soldados da ativa já deixaram a frente sem intenção de voltar, e os números só aumentam.

Um grupo de soldados caminha entre casas, ou melhor, construções frágeis que antes serviam de moradia. Paredes que restaram, vestígios de vidas. É uma força da Brigada Nahal em missão de varredura; logo virá o trator e destruirá ainda mais dos escombros. Os soldados o cercarão e darão cobertura, tentando não adormecer. Na maioria das vezes nada acontece, ninguém se aproxima, nenhuma figura aparece nas miras. “Nunca imaginei que isso seria o que eu faria no serviço”, admite Yoni, um dos combatentes. “Que eu me tornaria guarda-costas de máquinas pesadas”.

Mas naquele dia em Beit Lahia, algo aconteceu, conta Yoni (nome fictício, como os dos outros entrevistados). “Terroristas, terroristas”, gritou um soldado. “Entramos em frenesi, e eu imediatamente subi com a Negev [tipo de metralhadora – NT] e comecei a disparar rajadas, centenas de balas. Depois avançamos, e então percebi que foi um erro”.

Não havia terrorista ali. “Vi dois corpos de crianças, talvez de oito, talvez dez anos, não sei”, recorda Yoni. “Tudo sangue, cheio de marcas de tiros, eu sabia que era tudo culpa minha, que eu tinha feito aquilo. Quis vomitar. Minutos depois o comandante da companhia chegou e disse friamente, como se não fosse humano: ‘Eles entraram numa zona de extermínio, é culpa deles, assim é na guerra’”.

Isso foi no fim de maio passado, mas a cena não perdeu força, nem o que veio depois. Yoni disse a seus comandantes que queria ver um oficial de saúde mental, sem revelar o motivo. “Contei tudo, e ele me explicou que existe algo chamado ‘ferida moral’, que é quando você age contra seus valores e cai num tipo de dissonância entre o que acredita e o que faz”. No fim da consulta, o oficial recomendou que Yoni não voltasse ao combate, e ele foi transferido para função de apoio. “Sofro de flashbacks desse episódio”, relata. “Os rostos deles voltam para mim, não sei se algum dia vou esquecê-los”.

O Haaretz falou com vários soldados da ativa que nos últimos meses entenderam que não podiam mais servir como combatentes. A maioria explicou por desgaste ou por seu estado psicológico; mas havia também outros, relativamente poucos, que justificaram a decisão com “feridas morais” que marcaram sua alma. Os testemunhos que chegaram ao Haaretz nos últimos meses, desses e daqueles, mostram que não se trata de anomalia ou desvio estatístico. Além disso, segundo fontes do Departamento de Recursos Humanos, desde o início da guerra milhares de combatentes tiveram o serviço interrompido; alguns foram totalmente dispensados do exército por razões psicológicas, outros foram transferidos para funções de apoio ou administrativas. Oficiais que falaram com o Haaretz alegaram que a estimativa é baixa e que o número real é ainda maior.

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As estimativas, junto aos relatos, desenham um quadro bem diferente das publicações do porta-voz do exército, repetidas todos os dias na mídia. “Só na nossa unidade houve dezenas de soldados que pediram para sair do combate”, admite um oficial em uma brigada de infantaria. “É algo que sempre existiu, mas nunca nesses números. Está saindo do controle. Os soldados estão exaustos, não aguentam mais”. Também em outras brigadas de combate da ativa descrevem realidade semelhante. “Não há quase um dia em que eu não ouça falar de um combatente suplicando para ser transferido”, conta uma oficial de recursos humanos de um batalhão de blindados.

Para Beni, um franco-atirador da Brigada Nahal, a simples mudança de função já não basta. O ferimento que ele descreve é profundo demais. “Começou há cerca de dois meses”, relata. “Todo dia temos a mesma missão: proteger a ajuda humanitária no norte da Faixa”. O dia dele e de seus colegas começa às 3h30 da manhã. Acompanhados por drones e forças blindadas, eles montam uma posição de atiradores de elite e esperam. Por volta das 7h30 às 8h30, chegam os caminhões e começam a descarregar. Enquanto isso, os moradores tentam avançar para conseguir um bom lugar na fila, mas há uma linha invisível à frente deles que eles não percebem.

“Uma linha que, se eles a atravessarem, eu posso atirar”, explica Beni. “É como um jogo de gato e rato. Eles tentam vir por caminhos diferentes, e eu estou ali com meu rifle de precisão, e os oficiais gritam para mim: ‘Atira, atira’. Eu disparo 50–60 tiros por dia. Parei de contar as mortes. Não faço ideia de quantos matei. Muitos. Crianças”.

Segundo ele, muitas vezes não queria atirar – mas sentia que não tinha escolha. Foi forçado, ameaçado. “O comandante gritava pelo rádio: ‘Por que vocês não atiram? Eles estão avançando, é perigoso’”, descreve uma das pressões. “A sensação é que nos colocam em uma situação impossível, e ninguém nos preparou para isso. Aos oficiais não importa se crianças morrem, nem o que isso faz comigo psicologicamente. Para eles, eu sou só mais uma ferramenta”.

Após alguns dias de matança, ele diz, houve efeitos mentais. Desde então, eles se intensificaram. “Isso está me matando, já marcou a minha vida. Os pensamentos sobre toda essa morte não saem da minha cabeça. Se eu sinto um cheiro ruim, minha cabeça imediatamente interpreta como se fossem cheiros de cadáveres”. E não se trata apenas do que ele lembra, mas também do que ele vivencia dia e noite. “Três vezes urinei em mim como uma criança de quatro anos. Uma vez até sonhei que assassino minha família. Acordo cinco, seis vezes por noite. Vejo novamente todos aqueles que matei. É preciso entender, um atirador de elite não é como um piloto – ele vê suas vítimas através da mira. É terrível, não dá para explicar”.

Agora ele está tentando ser liberado das Forças de Defesa de Israel. “Não posso ficar lá nem mais um minuto”, ele deixa claro. “Fiz isso porque pensei que estava protegendo meus amigos e minha família, mas foi um erro. Não acredito nos oficiais, não acredito no governo. Só quero sair do exército e recomeçar minha vida.” “Na verdade”, ele suspira, “não sei se vou conseguir, será que é possível?”

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Quinze soldados se movem em fila. O sol está implacável, as meias grudam nas solas dos pés e o corpo inteiro sua. São os dias da onda de calor do último mês de julho. “Quando nos disseram que voltaríamos a lutar lá, a única sensação que passou pela minha cabeça foi confusão”, relembra Aharon suas sensações enquanto marchava entre os escombros de casas nas ruas de Beit Hanoun. Não há mais seres humanos vivos neles, apenas matilhas de cães. “Depois que terminamos da última vez, nos disseram que havíamos vencido, que tínhamos destruído tudo”.

Mas descobriu-se que a tarefa de destruição não estava concluída, e novamente ele foi forçado a garantir a segurança de forças de engenharia na rotina de demolição. Elas se aproximam dos edifícios, colocam explosivos, detonação, e seguem para a próxima destruição. No entanto, um dia, antes mesmo do sinal ser dado, ele ouviu uma explosão enorme. “Todos pensaram que fomos atacados, então começamos a atirar como loucos”, relembra Aharon, “senti meu pulso enlouquecer, não conseguia respirar, pensei que era o meu fim, que a qualquer momento dez terroristas saltariam sobre nós”.

Mas nenhum terrorista apareceu. “Na investigação, determinaram que uma das cargas foi acionada por engano antes da hora”, ele explica. “Um acidente operacional”, na linguagem do exército, um entre muitos. Desta vez, nenhum soldado morreu, então não é “notícia”, e os comandantes também não ficaram perturbados. “À noite, voltamos para o posto e todos agiram como se nada tivesse acontecido, nem mesmo uma conversa com um psicólogo nos deram”, testemunha Aharon. No dia seguinte, ele foi para sua casa em Jerusalém e começou a perceber que algo nele havia mudado.

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“Andei pelo mercado e cada barulho me assustava, cada grito de criança”, ele conta, “quando voltei para casa, entrei no quarto e comecei a chorar. Não entendia o que estava acontecendo com o meu corpo. Meus pais tentaram me perguntar se eu estava bem, e tentei esconder, não queria que eles se preocupassem. Durante quatro dias, saí do quarto apenas para comer”. Quando voltou ao exército, pediu ao seu comandante para ver um psicólogo. “Ele me disse: ‘O que há com você, foi só uma pequena explosão, é disso que você fica agitado? Você está tentando fugir de nós? Passar a ser um ‘jobnik’ [não-combatente – NT] inútil? Você quer trair o povo de Israel?’ Me senti humilhado, não acreditei que era isso que ele pensava de mim”.

Aharon não desistiu, e finalmente o comandante acatou seu pedido; mas, enquanto isso, até a vez do psicólogo, ele foi solicitado a voltar ao combate na Faixa. “Eu estava com medo, mas não queria mostrar aos amigos. Houve até uma vez que alguém atirou perto de mim e comecei a urinar nas calças”. Apenas após duas semanas, ele testemunha, encontrou-se com um psicólogo. “Ele ouviu tudo o que eu disse, mas explicou que era uma vergonha deixar de ser um combatente, que era uma vergonha as FDI perderem alguém como eu. Saí dele furioso, senti que ninguém me via, que eu era invisível”.

Por causa disso, pediu para se encontrar com o comandante do batalhão. “Disse a ele que sinto muito, mas não consigo mais ser um combatente”, ele relata. “Ele me disse que me arrependerei disso por toda a vida, que se algo acontecesse com meus amigos eu não iria me perdoar, que isso vai me assombrar, mas depois que eu irrompi em choro, ele suspirou e me disse com um tom desdenhoso: ‘Tudo bem, vou te rebaixar para um pelotão de apoio operacional, precisamos de pessoas na logística’. Finalmente consegui respirar. Só não voltar a Gaza, era tudo que eu queria”.

Oficialmente, o exército se recusa a repassar dados relevantes que esclareçam quantos combatentes em serviço regular não puderam mais continuar. Alegam que não é feito um acompanhamento sobre o assunto. “Mas mesmo que repassem algo assim, será distorcido”, alega um ex-oficial do Departamento de Recursos Humanos, “como fazem com a apresentação para a reserva, sem números, apenas porcentagens que ninguém sabe dizer exatamente o que significam”. Mas não apenas a extensão do fenômeno permanece na escuridão, mas também a forma de lidar com ele. Na verdade, o exército admite que não foi estabelecida uma política uniforme em relação a soldados que solicitam transferência de funções de combate. Nos casos em que um psicólogo ou outro profissional de saúde determina que um soldado não está apto para continuar no combate, os oficiais são obrigados a cumprir sua determinação, mas o que fazer em outros casos? Cada comandante de batalhão decide por si mesmo.

“Não coloco em combate um soldado que não está interessado”, afirmou em conversa com o Haaretz o comandante de um dos batalhões da brigada Kfir. “Prefiro entrar em combate com menos soldados do que com um soldado que não quer estar lá e pode colocar em risco os outros combatentes. Quem não serve para ser combatente, que vá ser cozinheiro ou motorista”. Mas nem todos os comandantes adotam uma abordagem similar. Assim confirmam três combatentes da brigada Nahal que, no último mês de julho, pediram para não entrar na Faixa. Os combatentes, cujo caso foi publicado inicialmente na emissora pública Kan, contaram que perderam muitos amigos, foram expostos a cenas difíceis e sofrem de “uma crise interna profunda”.

Um deles até contou que em uma das operações na Faixa, os soldados do pelotão mataram por engano uma mulher e seus dois filhos, que entraram em uma “zona de assassinatos” arbitrária estabelecida pelo exército. “Não sabíamos, vimos três figuras e atiramos de acordo com as ordens”, disse. “Após esse evento, três combatentes saíram devido a trauma pós-traumático, sofriam de sonhos à noite, insônia. Eles viam aquelas crianças”. Mas, segundo ele, ninguém conversou com eles depois, “tudo continuou como sempre”.

Como assim como sempre? Até um psicólogo que se encontrou com eles após a recusa determinou que estavam aptos para entrar em combate, em sua opinião. E então o comandante da brigada decidiu julgá-los à pena de prisão. Apenas após o barulho que o caso causou na mídia e nas redes sociais, o exército decidiu voltar atrás na decisão. “O comandante da brigada errou em sua decisão”, apressaram-se em informar os porta-vozes das FDI aos correspondentes.

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No entanto, nem todos os casos chegam ao conhecimento do público. O Haaretz soube de pelo menos 23 soldados em serviço regular que foram julgados nos últimos meses por se recusarem a entrar na Faixa; a maioria das brigadas Nahal e Givati, bem como das brigadas blindadas. Soldados testemunham que a ameaça de pena de prisão às vezes os faz recuar em seu pedido.

“O comandante do batalhão me disse que se eu não voltasse para o tanque, ele me mandaria direto para a prisão, e também cuidaria para que meu certificado de combatente fosse revogado”, ilustra um combatente blindado da Brigada 7. “Isso me estressou, mas principalmente me ofendeu. Depois de tudo que passei, depois de tudo que dei, é isso que você me diz? Só queria terminar o serviço em uma função que me permitisse recuperar minha alma”.

Segundo o comandante, ele não tinha combatentes suficientes. O combatente ficou com raiva, mas decidiu ceder, assim ele relembra a conversa. “Voltei para aquele inferno de Gaza. Hoje me sinto como um zumbi, mal funciono, acordo à noite, simplesmente fico nervoso, chuto tudo que vejo”, admite. “De vez em quando, passa pela minha cabeça a ideia de quebrar minha própria perna. Uma vez até tentei, mas não deu certo, apenas fiquei mancando por duas semanas como um idiota”.

Segundo ele, já se vê morto, não como uma expressão – literalmente. “As pessoas não entendem como é difícil acordar à noite todo suado depois de sonhar que seu tanque pega fogo depois de ter atingido uma carga. Às vezes posso ouvir os gritos, imaginar como será”, ele ilustra. “Não compartilho esses pensamentos com os amigos do pelotão para que não pensem que sou louco, embora pareça que com alguns deles também acontece. De vez em quando, você pode ouvir alguém falando dormindo, às vezes gritando. Pessoalmente, a única coisa que me sustenta é o pensamento de que logo isso termina. E depois disso, não pretendo vestir um uniforme nunca mais – que não ousem me enviar uma convocação”.

“Tire a arma da boca ou você perde um dia de saída”

Khan Younis, início de agosto, pouco depois das 3:00 da manhã. Um pelotão da brigada Kfir se organiza para um ataque de rotina. É um pelotão veterano, eles já estão treinados nos preparativos, fizeram isso dezenas de vezes. Enchem água, colocam comida no colete, verificam se os carregadores estão cheios e saem. Por muitas horas eles não farão nada, assim contam. Por volta das 11:00, eles entram em uma casa abandonada que ainda está de pé. “Locação”, é como chamam no exército. Por horas, eles esperarão lá por ordens para continuar a operação, e enquanto isso estão presos no limbo de calor e tédio.

Em certo ponto, surge uma discussão. Três dos soldados pedem ao comandante do pelotão para remover o colete cerâmico por alguns minutos, mas ele se recusa. “Senti que ia desmaiar, que a qualquer momento eu desmaiaria”, conta Omer, um deles. “Só queria me refrescar, mas o oficial não concordou, então comecei a xingá-lo”. Mas o oficial, segundo testemunharam três soldados do pelotão, ficou em silêncio – e puxou o gatilho. “Ele simplesmente atirou no chão, ao meu lado”, relembra Omer, “por um milagre não atingiu ninguém, fiquei em choque, todos ficaram”.

Depois, ele conta, o oficial tentou convencê-los de que foi uma brincadeira. “Disse que estava apenas brincando, e que fez isso de propósito para nos endurecer, mas comigo não teve graça nenhuma, para mim foi meu sinal de que eu tinha que cair fora dali”, ele explica. “De repente, tudo veio à tona. Entendi que não confiava nele, que estava cansado de avançar e atirar à toa, que não aguentava mais urinar em uma garrafa em alguma casa com ratos em Gaza e sofrer com coceiras por todo o corpo”. E a tudo isso, ele acrescenta, há também um contexto mais amplo: a participação “em mais e mais missões que ninguém realmente consegue entender qual é o seu objetivo”.

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Após terminarem a atividade, Omer se aproximou do oficial e tinha um pedido – parar de ser combatente. “Ele me disse: ‘Proponho um acordo – você não conta o que aconteceu, e eu cuido para que você seja transferido para alguma função que você queira’. Senti que era um ato sujo, mas concordei. Já estava acabado, exausto, só queria sair dali”. Cerca de uma semana depois, Omer foi transferido para a função de cozinheiro. O incidente nunca foi relatado aos comandantes superiores da brigada.

Mas este não é o único incidente incomum que ocorreu naqueles dias em Khan Younis. Em outro pelotão da brigada Kfir, vários soldados contaram ao Haaretz que um de seus colegas ameaçou suicídio duas vezes depois que seu comandante se recusou a permitir que ele encontrasse um psicólogo. Segundo eles, uma vez o soldado até colocou o cano de sua arma na boca. “Se você não tirar a arma da boca, você perde um dia de saída”, ameaçou-o o oficial. De acordo com o testemunho dos soldados, eles também foram forçados a retirar a arma de sua boca por conta própria.

Após a segunda tentativa de suicídio, os soldados recorreram ao comandante do batalhão, e só então o soldado foi encaminhado para tratamento do psicólogo – que o liberou das FDI imediatamente. “O incidente é grave e lições serão aprendidas de acordo”, informou na época ao Haaretz o porta-voz das FDI. “O pelotão passou por um processo profundo e sério com o acompanhamento dos comandantes e dos profissionais de saúde mental. Ao final do processo, decidiu-se dispersar os combatentes em diferentes pelotões dentro do batalhão”. Até onde se sabe do Haaretz, o oficial não foi afastado do serviço.

No entanto, o desdém pela saúde mental dos soldados não é reservado apenas aos oficiais juniores da brigada. No final de junho, o Haaretz contatou as FDI sobre um soldado que foi exposto a vários incidentes graves na Faixa e deixou claro que não podia mais continuar em uma função de combate devido a sérias dificuldades mentais. Após uma luta, ele foi removido do serviço de combate, mas embora tenha parado de acumular novas experiências difíceis, as antigas não o abandonaram, e o tratamento mental que recebeu no exército não o ajudou suficientemente. “Toda vez que algo não dá certo para esse soldado, ele recorre à mídia”, disse na época ao Haaretz o então comandante da brigada, Yaniv Barot. “Ele está apenas fingindo”.

Algumas semanas depois, após um novo contato do jornal devido à preocupação de que o soldado pudesse se machucar, ele foi convocado para tratamento na Clínica de Restrições (Merkhav Tzimtumim), que fornece tratamento intensivo para soldados que sofrem de ferimentos psicológicos. A Tenente-Coronel Michal Lipshitz, psiquiatra e ex-chefe do ramo clínico do Corpo Médico, foi bastante decisiva após um exame inicial de sua condição. “Suspeita de TEPT [Transtorno de Estresse Pós-Traumático] grave”, ela escreveu.

Além do caso na brigada Kfir, chegaram ao conhecimento do Haaretz outros cinco casos de tentativas de suicídio de soldados regulares no território da Faixa no último ano; todos os soldados envolvidos neles foram liberados das fileiras do exército. Quantos casos houve de fato? As FDI se recusam a repassar qualquer fragmento de informação sobre isso.

Não apenas as tentativas de suicídio na Faixa são escondidas dos olhos do público, mas também o número de soldados e oficiais liberados por circunstâncias mentais desde o início da guerra. As FDI se recusaram a repassar dados sobre o assunto, e o porta-voz das FDI até atrasa a resposta ao pedido que o jornal apresentou de acordo com a Lei de Liberdade de Informação há mais de três meses – ilegalmente. “Trata-se de um pedido que requer a coleta de muitas informações de vários órgãos que atuam na área, e por isso a resposta foi muito atrasada”, foi informado em resposta do exército.

Mas fontes do Departamento de Recursos Humanos admitem que no exército “há uma tendência a atrasar a publicação ou o fornecimento de dados que não servem a uma de suas metas”. Segundo uma fonte no ramo de saúde mental das FDI, “os dados são dramáticos, especialmente em relação aos combatentes em serviço regular”.

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Em uma discussão na Comissão de Relações Exteriores e Segurança do Knesset (Parlamento) em julho passado – após a exposição do Haaretz sobre o recrutamento de pós-traumáticos para a reserva – um dado relevante foi aparentemente revelado. O chefe do Departamento de Saúde Mental do exército, Coronel Yaakov Rothschild, disse então que desde o início da guerra até aquela época, 1.135 soldados no serviço regular e na reserva receberam dispensa mental devido a trauma pós-traumático. Mas uma verificação do Haaretz revelou que se trata de um dado apenas parcial, que inclui apenas os soldados regulares diagnosticados com TEPT no exército, e não aqueles liberados devido a outros problemas mentais, incluindo aqueles diagnosticados com o transtorno após sua liberação.

E há outro dado, classificado à força: casos que não terminaram apenas em tentativas de suicídio. “Foi só apenas um incidente muito incomum em Gaza, estou bem, não se preocupem”, escreveu um oficial de engenharia de combate à sua família em julho passado. No dia seguinte, ele cometeu suicídio detonando uma granada de fragmentação no sul da Faixa. Seu nome não foi liberado para publicação.

O porta-voz das FDI se recusou a responder à alegação sobre o número de soldados em serviço regular que solicitaram parar de servir em funções de combate e enviou uma resposta geral sobre o tratamento da saúde mental no exército: “As FDI investem muitos recursos no tratamento do indivíduo e na saúde mental. A política sobre o assunto é fornecer tratamento profissional, acessível e sensível de forma proativa, a fim de alcançar o maior número possível de servidores que sofrem de angústia, diagnosticar e oferecer tratamento adequado, e centros foram estabelecidos para esse fim que entraram em contato com milhares de soldados em serviço. Todo caso que se desviou do tratamento esperado do indivíduo é tratado imediatamente e da melhor forma possível. Se casos específicos forem trazidos, eles serão tratados prontamente”.

* Tom Levinson é repórter do jornal israelense Haaretz. Ele tem escrito reportagens sobre a saúde mental dos soldados que participam do genocídio contra o povo palestino de Gaza. Reportagem publicada no Haaretz em 15/09/2025.

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