Retrato do genocídio em Gaza é retirado de exposição fotográfica na França após pressão do lobby sionista
A imagem de Jehad Alshrafi, mostrando palestinos jogando futebol em meio a edifícios destruídos, foi substituída após “solicitações” cuja origem não foi revelada
Fotografia de Jehad Alshrafi retirada da exposição
Por Serap Doğansoy*
Diversos responsáveis políticos franceses denunciaram a retirada de uma fotografia tirada em Gaza da exposição do Festival Deauville Sport Images e pediram que a prefeitura tornasse públicas as circunstâncias dessa decisão.
Produzida pelo fotojornalista palestino Jehad Alshrafi, colaborador da agência Associated Press (AP), a imagem mostra jogadores do Gaza Sports Club e do Al-Ahly disputando uma partida em 14 de fevereiro de 2026 em um campo cercado por edifícios fortemente danificados.
A fotografia, apresentada no âmbito da segunda edição do festival, foi retirada e substituída por uma imagem de ciclistas.
A substituição foi constatada em 20 de agosto por Sylvain Larcher, secretário da seção local do Partido Socialista e membro da associação Gauche Côte Fleurie.
Segundo ele, a fotografia não mostra apenas uma partida de futebol, mas também testemunha a vontade dos palestinos de continuar jogando, se reunindo e preservando uma forma de esperança em meio à destruição.
“A cultura e a fotografia não devem estar submetidas a pressões, sejam elas quais forem”, declarou, pedindo à prefeitura que explicasse as razões dessa decisão.
“Solicitações” não identificadas
A prefeitura de Deauville, organizadora do festival, confirmou que a fotografia havia sido substituída após “solicitações”, sem especificar sua origem.
“Não queremos entrar em polêmica nem ofender quem quer que seja”, declarou ao jornal local Le Pays d’Auge.
Em uma resposta citada pela France 3 Normandie, a prefeitura indicou que a imagem não era “de forma alguma pró-Hamas” e que ela fazia parte de uma exposição destinada a mostrar que “o esporte está em toda parte, independentemente dos lugares e das circunstâncias”.
A prefeitura afirmou, no entanto, que a fotografia provocava “novas dores” e anunciou sua retirada para “silenciar essa polêmica desproporcional”.
Ela não especificou publicamente a identidade das pessoas ou organizações que solicitaram sua substituição.
Jogadores palestinos do Gaza Sports Club e do Al-Ahly Club participam de uma partida de futebol em um campo recém-construído, cercado por edifícios destruídos durante operações terrestres e aéreas israelenses, na Cidade de Gaza, sábado, 14 de fevereiro de 2026. (Foto AP/Jehad Alshrafi)
Arthur Delaporte denuncia uma “censura silenciosa”
O deputado socialista do departamento de Calvados, Arthur Delaporte, manifestou apoio a Sylvain Larcher e exigiu “total transparência sobre as circunstâncias que levaram à retirada” da fotografia.
“A retirada de uma foto de Gaza em Deauville, no âmbito de um festival de fotojornalismo esportivo, causa legitimamente indignação: a cultura e a verdade não podem ser objeto de uma censura silenciosa”, declarou na rede social norte-americana X.
O deputado lembrou que a função do fotojornalismo é “mostrar a realidade em toda a sua complexidade”.
“A vontade declarada de não ‘ofender’ não pode se transformar em um princípio de desprogramação cultural. A liberdade artística e a liberdade de informar pressupõem precisamente que se possa mostrar aquilo que incomoda”, acrescentou.
Arthur Delaporte pediu que os motivos da retirada fossem tornados públicos, que a cidade de Deauville apresentasse desculpas e que a fotografia recuperasse seu lugar na exposição “o mais rapidamente possível”.
Emma Fourreau interpela o festival e a prefeitura
A eurodeputada francesa Emma Fourreau também denunciou o que considera uma “invisibilização do povo palestino até mesmo nas artes”.
“Até a imagem de jovens palestinos jogando futebol em meio às ruínas de Gaza incomoda”, declarou na rede social norte-americana X.
Ela classificou a retirada da fotografia como uma “decisão indigna” e exigiu explicações dos organizadores e da prefeitura.
“Enviei-lhes uma carta”, precisou.
O primeiro-secretário do Partido Socialista, Olivier Faure, também reagiu:
“A imprensa proibida em Gaza, as fotografias proibidas em Deauville, a liberdade de informação pisoteada.”
Por sua vez, a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, considerou que exibir a fotografia constituía “um ato de resistência” contra a censura e contra o que ela considera uma tentativa de apagar a realidade em Gaza.
Organizado de 6 de junho a 6 de setembro pela cidade de Deauville, o festival apresenta cerca de 300 fotografias em vários espaços do município e busca explorar o esporte em suas dimensões social, humana, cultural, artística e histórica.
* Repórter da agência de notícias turca Anadolu em Istambul. Reportagem publicada pela Anadolu em 26/08/2026.
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