“A essência da infância foi destruída”: ONU denuncia extermínio e tortura de crianças palestinas por “israel”

Novo relatório de 94 páginas reforça as denúncias contra o regime genocida israelense, trazendo testemunhas aterrorizantes de crimes cometidos "deliberadamente" contra menores de idade de Gaza e da Cisjordânia

24/06/2026

Meninas de Gaza lutam para se recuperar após ataque israelense matar mãe e irmãos. (Foto: Screenshot Al Jazeera)

Um relatório da Comissão Independente Internacional de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, e “israel”, apresentado ontem (23) ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, reforça o que é visível desde outubro de 2023: “israel” está exterminando deliberadamente as crianças palestinas. 

Intitulado “A essência da infância foi destruída”, o documento alega que as forças de “israel” realizaram uma campanha deliberada de violência contra os menores, resultando em milhares de mortes, ferimentos, tortura e abusos sexuais generalizados.

O massacre de crianças: números e métodos

O relatório afirma que, entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, pelo menos 20.179 crianças palestinas foram mortas e 44.143 ficaram feridas como resultado direto da ofensiva genocida do exército israelense em Gaza. 

Isso representa 30% dos mortos e 26% dos feridos no período. A Comissão observa que “o aumento na proporção de crianças mortas em comparação com escaladas anteriores de hostilidades” se deve ao uso de “armas explosivas com efeitos de grande área” e à “expansão de seus critérios de alvo, sem tomar precauções adequadas”.

As acusações vão além dos números. O relatório descreve um padrão de “disparo deliberado contra adolescentes em um jogo de tiro ao alvo”. Cita o testemunho de um médico que visitou Gaza: 

“Com base no agrupamento de ferimentos e nas partes do corpo visadas, avalio que os soldados israelenses têm atirado deliberadamente em adolescentes em um jogo de tiro ao alvo – uma parte diferente do corpo sendo alvejada em dias diferentes… Há um padrão muito claro que sugere que isso é uma mira deliberada em diferentes partes do corpo [das crianças]”.

A Comissão investigou casos específicos de tiroteios diretos. Em um deles, “em 24 de janeiro de 2024, por volta das 08:30, uma família se preparava para evacuar seu apartamento… O filho de 15 anos saiu de casa segurando um pano branco, quando o pai… ouviu um tiro vindo do lado leste onde os soldados israelenses estavam localizados. O menino foi atingido no pé esquerdo e caiu de bruços. Ao tentar se levantar, mais dois tiros foram disparados em segundos da mesma direção. Um tiro atingiu o menino nas costas e outro no lado esquerdo do pescoço.” O irmão de 20 anos que correu para ajudá-lo também foi baleado no peito. A Comissão concluiu que “o atirador israelense deveria ter sido capaz de ver que o alvo era uma criança e que ele estava segurando uma bandeira branca” e que “os dois tiros adicionais disparados depois que o menino foi atingido provavelmente tinham a intenção de garantir que ele estivesse morto“.

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Outro caso chocante envolveu Hind Rajab, uma menina de 5 anos. Em 29 de janeiro de 2024, sua família tentava evacuar de Tel al-Hawa, na Cidade de Gaza. Em uma ligação desesperada para a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, Hind relatou que estava ferida e que sua família estava morta. A Comissão relata que “Hind respondeu às ligações subsequentes da PRCS com sons de tiros ao fundo. Em uma das ligações, Hind disse à mãe que havia sido baleada no braço, nas costas e no pé.” Uma ambulância que tentou resgatá-la foi alvejada com tiros e granadas de tanque, matando os dois paramédicos. O corpo de Hind e de sua família só foi recuperado 12 dias depois. A Comissão concluiu que “os veículos das forças de segurança israelenses estavam presentes nas proximidades do posto de gasolina Fares” e que “a 401ª Brigada… alvejou deliberadamente a família no carro, incluindo Hind, Layan e outras crianças, à queima-roupa, apesar de saber que havia crianças dentro, e obstruiu o resgate médico de Hind”.

O relatório também documenta o uso de mísseis e bombas em áreas densamente povoadas. Em 23 de maio de 2025, em Khan Younis, “dois ataques aéreos israelenses atingiram uma casa residencial matando nove das 10 crianças e o pai”. A única criança sobrevivente, um menino de 11 anos, ficou gravemente ferido.

Tortura e maus-tratos nas masmorras sionistas

O relatório acusa as forças de “israel” de prender e torturar sistematicamente crianças palestinas, especialmente meninos adolescentes. Desde 7 de outubro de 2023, mais de 1.655 crianças foram detidas na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental. O número de detidos em Gaza é desconhecido, pois “as autoridades israelenses não divulgaram os dados nem o paradeiro das crianças presas”.

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A Comissão descreve um padrão de abuso desde o momento da prisão: “as crianças são frequentemente submetidas a danos desde o início da prisão, que muitas vezes são realizadas no meio da noite, quando os militares israelenses invadem suas casas, danificam propriedades e geram intenso medo e trauma para as crianças e famílias, incluindo agressões físicas, algemas e venda nos olhos”. 

O depoimento de um menino de 15 anos, detido em dezembro de 2023, é elucidativo: “Os soldados israelenses usaram carteiras de identidade para chamar seu nome, vendaram e amarraram suas mãos, depois o moveram junto com outros à noite para um local desconhecido, onde os detidos foram privados de água e mandados beber a própria urina… Ele foi interrogado sobre o Hamas, túneis e acusado de participar de ataques no sul de Israel (sic.) em 7 de outubro de 2023. Durante 54 dias, ele foi repetidamente interrogado e torturado, incluindo ser eletrocutado através de uma agulha inserida em seu ombro, privado de comida e água e forçado a posições dolorosas por até 12 horas de cada vez.”

Outro menino de 15 anos, detido em Sde Teiman, relatou que era o único menor entre 70 adultos em uma cela. “Os soldados israelenses o fizeram ficar de braços levantados por horas como punição em múltiplas ocasiões. Suas pernas foram algemadas com correntes de metal e as mãos algemadas com tanta força que sangravam, sem que ele recebesse qualquer atenção médica. Ele podia dormir apenas quatro horas em um colchão fino e com um cobertor fino durante o inverno. Os soldados israelenses entraram em sua cela com cães, fizeram ele e outros detentos deitarem de bruços e soltaram os cães sobre eles.” O menino descreveu seus 23 dias de detenção como “os piores dias da minha vida”.

A Comissão também documentou a morte de um menino de 17 anos na Prisão de Megiddo, em 22 de março de 2025. A autópsia revelou que ele sofria de “desnutrição grave e prolongada levando à sarcopenia… perda de peso grave e perda muscular, juntamente com inflamação do cólon indicando colite, bem como sarna nas pernas e área genital”. O relatório conclui que “as autoridades prisionais maltrataram severamente a vítima e causaram sua morte, constituindo os crimes de guerra de tortura, tratamento desumano e homicídio doloso”.

O menino em questão é Walid Ahmed, neto de uma brasileira e que, portanto, possuía cidadania brasileira e palestina. Ele faleceu cerca de seis meses após seu sequestro por agentes israelenses em 30 de setembro de 2024, em Silwad, na Cisjordânia. Estava detido sem ter sido julgado e morreria menos de um mês antes de completar 18 anos. 

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Tortura sexual como arma de guerra

O relatório faz acusações graves de violência sexual e de gênero contra crianças palestinas, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia. A Comissão documentou casos de “nudez pública forçada”, onde crianças eram obrigadas a se despir na frente de suas famílias e comunidades. Em um caso, durante a evacuação na Rua Salah al-Din, em novembro de 2023, “homens, mulheres, meninos e meninas foram todos obrigados a se despir sob a mira de armas em um posto de controle improvisado, fazer uma bola com suas roupas e jogá-las para os soldados israelenses. Disseram-lhes que segurassem seus documentos de identidade bem alto e continuassem andando enquanto estavam nus. As forças de segurança israelenses disseram que qualquer um que não obedecesse às ordens seria baleado.”

Em outro incidente, na Cisjordânia, em 10 de março de 2025, “os soldados forçaram dois primos, um menino de 7 anos e um menino de 13 anos, sob a mira de armas, a se despir até a cueca no frio, amarraram suas mãos com laços de plástico, bateram neles, incluindo o menino mais novo que foi atingido nas costas, e os mantiveram do lado de fora enquanto revistavam a casa”. Eles foram então colocados em um veículo militar e levados para um centro de interrogatório.

A violência sexual se estendeu ao sistema prisional. O relatório afirma que “meninos palestinos foram fotografados e filmados em circunstâncias humilhantes e degradantes enquanto eram submetidos a atos de natureza sexual, incluindo nudez pública forçada”. Uma testemunha descreveu como “uma soldado israelense em Gaza ordenou que dois adolescentes que haviam sido despidos até a cueca se curvassem e expusessem suas nádegas, enquanto ela ria e batia palmas“.

A Comissão recebeu informações de uma organização sobre “violência sexual e de gênero contra meninos em detenção, envolvendo estupro, ameaças de estupro, agressão sexual, violência contra os genitais, despir à força e atos humilhantes enquanto despidos pelas forças de segurança israelenses. Um menino relatou ter sido estuprado mais de uma vez por diferentes guardas. Um menino de 15 anos relatou ter sido ameaçado de estupro.” A Comissão conclui que “a violência sexual e de gênero está sendo usada no contexto de detenção e prisões como um método de guerra e intimidação contra crianças palestinas”.

Um padrão de crimes contra a humanidade

O relatório da Comissão conclui que as ações das forças de “israel” contra crianças palestinas constituem crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo extermínio, homicídio doloso, tortura, tratamento desumano, perseguição e violência sexual. 

A Comissão afirma que “as forças de segurança israelenses mataram e mutilaram intencionalmente crianças palestinas”, “prenderam e torturaram” e “infligiram violência sexual”. O documento também alega que “Israel cometeu o crime de genocídio em Gaza” ao matar e causar sérios danos físicos e mentais a membros do grupo, incluindo crianças palestinas.

O relatório é um testemunho sombrio do que a Comissão descreve como a destruição da própria essência da infância palestina, representando uma das mais graves violações dos direitos humanos da nossa época.

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