Como “israel” conduz a guerra da informação, entre “incriminação retrospectiva”, censura e manipulação de IA

Um ano após o bombardeio do Hospital Nasser, que matou 22 pessoas no sul da Faixa de Gaza, um militar israelense descreveu a vários meios de comunicação a forma como seu exército procura, por todos os meios, vincular as vítimas ao Hamas

27/08/2026

(Foto: Hatem Khaled/REUTERS)

Por Luc Bronner*

Trata-se de um testemunho raro, vindo de uma fonte militar que fala para descrever um dos aspectos da batalha pela informação: quando surge a suspeita de um crime de guerra, como o Exército israelense se organiza para responder e reduzir ao máximo o impacto das imagens ou informações divulgadas? Sob rigorosas condições de anonimato, esse militar descreveu a uma ONG israelense, Breaking the Silence, e a vários veículos de comunicação, entre eles o Le Monde, o método recorrente empregado pelo Exército, tomando como base um episódio marcante da guerra em Gaza.

Na manhã de 25 de agosto de 2025, pouco depois das 10 horas, um ataque do Exército israelense atingiu um edifício do Hospital Nasser, em Khan Younis, no sul do enclave palestino. Alguns minutos depois, o local foi atingido uma segunda vez. Ao todo, vinte e duas pessoas morreram e cinquenta ficaram feridas. Entre elas estavam profissionais de saúde e cinco jornalistas, incluindo correspondentes das agências Associated Press e Reuters. Uma câmera instalada do lado de fora registrou o segundo ataque, que atingiu socorristas e jornalistas no momento em que prestavam assistência às vítimas da primeira explosão.

O ataque provocou forte comoção internacional. O militar que presta o testemunho descreve o método empregado por Israel para tentar limitar as consequências perante a opinião pública. Primeiro, o Exército informou que o alvo localizado no telhado do hospital era uma câmera utilizada pelo Hamas para monitorar os deslocamentos dos soldados israelenses — afirmação que não era verdadeira, como demonstrou uma investigação da Reuters. Sobretudo, o Exército iniciou um processo de “reenquadramento retrospectivo”: procurar, por todos os meios, associar as vítimas desse duplo ataque ao Hamas, organização responsável pelo ataque de 7 de outubro de 2023.

A fonte relata o procedimento:

“Após um ataque desse tipo, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel [o Exército israelense] procura relacionar as pessoas mortas ou feridas ao Hamas. É isso que eles tentam fazer de início, porque, se fosse possível afirmar que as pessoas mortas eram terroristas do Hamas, pareceríamos melhores aos olhos do mundo. Esse processo é chamado de incriminação retrospectiva.”

Segundo o militar, o objetivo é transferir a responsabilidade para o inimigo e diluir o impacto das imagens.

“Se existir a menor informação, mesmo uma ligação muito fraca com o Hamas, podemos dizer que se trata de um terrorista do Hamas.”

Uma metodologia repetida

As provas podem ser mínimas ou mesmo inexistentes. Foi o caso da câmera do Hospital Nasser:

“Não conseguimos fazer o jornalista que estava com a câmera passar por terrorista e não conseguimos vinculá-lo a uma organização terrorista.”

Esse episódio o convenceu a falar:

“Decidi quebrar o silêncio depois desse ataque porque compreendi que as Forças de Defesa de Israel estavam visando jornalistas. Eles chamavam isso de ameaça tática, de objetivo militar, mas, no fim das contas, são jornalistas.”

Resultado da incriminação posterior: no dia seguinte aos ataques, o Exército anunciou que seis das vítimas eram “terroristas do Hamas”, embora a operação, tal como havia sido planejada pela Brigada Golani e validada pelo Comando Sul (responsável pela região ao redor de Gaza), tivesse como alvo apenas uma câmera. Paralelamente, o Estado-Maior justificou a decisão acusando o Hamas:

“O inimigo realiza uma ampla e clandestina coleta de inteligência visual, explorando cinicamente locais sensíveis e infraestruturas civis, como o Hospital Nasser, a partir dos quais conduz atividades terroristas contra as tropas das Forças de Defesa de Israel.”

Como fazem quase sistematicamente nesse tipo de situação, as autoridades militares também anunciaram uma investigação, embora, na prática, as responsabilizações de soldados permaneçam raras. Doze meses depois, a investigação interna continua aberta, informou ao Le Monde o porta-voz do Exército israelense, na segunda-feira, 24 de agosto.

“As Forças de Defesa de Israel não comentarão, neste estágio, os detalhes do incidente, que fazem parte da investigação em curso.”

O Exército também se recusou a responder sobre o uso de ataques duplos, particularmente mortais para socorristas e jornalistas.

O testemunho sobre as falsidades relacionadas ao Hospital Nasser lança luz sobre uma metodologia repetida sempre que civis, profissionais de saúde, trabalhadores humanitários ou repórteres são mortos pelo Exército.

“As regras de engajamento imprudentes das Forças de Defesa de Israel, combinadas com seus procedimentos de incriminação retrospectiva, são utilizadas pelo Exército como uma justificativa quase automática para cada bala, projétil ou míssil disparado, e como uma ferramenta para evitar investigações reais.”

A acusação é de Nadav Weiman, diretor executivo da Breaking the Silence, ONG que recolhe e verifica depoimentos de soldados há mais de vinte anos.

“Os acontecimentos que custaram a vida a profissionais da mídia no Hospital Nasser decorrem dessas políticas das Forças de Defesa de Israel e não devem ser ocultados por tentativas de apresentá-los como um incidente isolado ou como um comportamento incompatível com os protocolos militares.”

Justificativas posteriores

“Essas políticas injustificáveis estão no centro das escolhas das Forças de Defesa de Israel sobre a forma como combatem em Gaza.”

Os exemplos dessas justificativas posteriores são numerosos desde o início da guerra em Gaza. Um caso foi o dos quinze socorristas palestinos que desapareceram e depois foram encontrados mortos, em março de 2025, perto de Rafah. Após matá-los, soldados israelenses os enterraram com tratores. Um vídeo encontrado em um dos corpos e uma investigação do New York Times mostraram que os militares haviam mentido. Uma investigação criminal acabou sendo aberta pelo Exército israelense em agosto. O mesmo ocorreu quando equipes humanitárias foram diretamente atacadas, como as da World Central Kitchen, em abril de 2024. Ou ainda nos repetidos bombardeios contra escolas e hospitais, responsáveis por um número considerável de mortes, especialmente de mulheres e crianças.

A prática não é nova. Ela faz parte de uma estratégia formulada explicitamente pelo Exército israelense há mais de dez anos, que coloca entre suas prioridades doutrinárias a defesa da “legitimidade” de suas operações. Mas esse método de gestão de crises assumiu uma dimensão sem precedentes devido à intensidade da guerra conduzida em Gaza desde 7 de outubro de 2023, com mais de 73 mil mortos contabilizados pelas autoridades locais, número durante muito tempo contestado pelo Exército. Trata-se de uma guerra da informação que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu frequentemente chama de “oitava frente”, além das frentes abertas em Gaza, Líbano, Irã, Síria, Iêmen, Cisjordânia e Iraque.

“Israel combate simultaneamente nas frentes do território, da segurança, da legitimidade e da credibilidade”, explicou recentemente no X Peter Lerner, ex-porta-voz internacional do Exército israelense.

A presença da imprensa é decisiva.

“Quando existe um vídeo, quando ele é publicado e acessível a todos, o mundo inteiro pode vê-lo. Então torna-se muito mais difícil controlar a narrativa.”

Desde o início do conflito, mais de 200 jornalistas palestinos foram mortos por soldados israelenses, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Trata-se de um número sem precedentes na história recente.

Ao mesmo tempo, há dois anos e dez meses os repórteres internacionais continuam impedidos pelo Estado israelense de entrar em Gaza.

“Uma situação sem precedentes na guerra moderna.”

Foi assim que mais de 130 diretores e diretoras de jornais denunciaram a situação em junho. Sem sucesso. Recursos foram apresentados à Suprema Corte israelense, mas foram rejeitados. Essa proibição também reduz a capacidade dos meios de comunicação de investigar o Hamas, seus dirigentes e combatentes, embora a organização islâmica seja acusada de execuções extrajudiciais e atos de tortura, além do ataque de 7 de outubro de 2023.

Censura militar

A guerra da informação também é uma guerra contra a informação. O Exército dispõe de outro instrumento, antigo, menos conhecido, mas particularmente eficaz: a censura militar. Seu uso explodiu desde 7 de outubro de 2023. Uma ONG israelense, o Movimento pela Liberdade de Informação, e o site de investigação +972 obtiveram, por meio de ações judiciais, estatísticas referentes a vários anos. Em 2024, as censuras parciais atingiram 6.265 artigos e as proibições totais 1.635. Números recordes, embora tenham diminuído um pouco em 2025.

O Exército exige que os cortes não sejam perceptíveis.

“É proibido imprimir ‘tarjas’ no lugar de textos cuja publicação não tenha sido aprovada pelo censor.”

A advertência consta de uma nota oficial assinada pelo general de brigada responsável pela censura militar.

“Quando o censor intervém, os meios de comunicação estão proibidos de indicar que houve censura, o que significa que a maior parte dessa atividade permanece oculta ao público. Nenhuma outra entidade que se defina como uma ‘democracia ocidental’ possui uma instituição comparável.”

A observação é de Haggai Matar, diretor do site +972, ao divulgar esses números.

Nesse contexto, os meios de comunicação investigativos israelenses demonstram preocupação. A censura não os impediu de publicar informações sensíveis, como as violências cometidas contra detentos nas prisões, as kill zones (“zonas de destruição”) ao redor dos centros de distribuição de alimentos, o uso da inteligência artificial para selecionar alvos ou a utilização de palestinos como escudos humanos para proteger soldados. Mas a pressão é forte. Em meados de julho, a Associação pelos Direitos Civis em Israel (ACRI) escreveu ao chefe do Shin Bet, o serviço de inteligência interna, para alertar sobre a ampliação da vigilância contra jornalistas por meio de seus telefones, após a divulgação de uma investigação sobre o tema.

Quanto aos meios de comunicação internacionais, uma lei aprovada pelo Parlamento no final de dezembro de 2025 prevê a possibilidade de apreender equipamentos, fechar escritórios e proibir transmissões caso o governo considere que eles ameaçam a segurança nacional. Isso já havia sido feito em 2024 contra a emissora catariana Al Jazeera. O método se aproxima daquele utilizado para impedir, no início de 2026, o acesso a Gaza de ONGs internacionais consideradas inconvenientes. São organizações que já não estão no enclave para testemunhar de forma independente a situação. São também menos fontes disponíveis para jornalistas que permanecem do lado de fora.

“As provas, a documentação e os testemunhos são precisamente aquilo que Israel procura apagar por meio de ameaças, censura e assassinato de jornalistas. Ao manter os jornalistas afastados, Israel ganha tempo.”

A afirmação é da jornalista palestina Taghreed El-Khodary, em artigo publicado pelo jornal Haaretz em 10 de agosto.

Propaganda

A situação também se deteriorou fortemente na Cisjordânia, território ocupado desde 1967. Os sindicatos de jornalistas palestinos relatam ataques constantes à liberdade de imprensa desde 2023. Várias dezenas de profissionais foram presos, alguns deles submetidos à tortura. Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), dezenove jornalistas da Cisjordânia estariam atualmente detidos.

“Num contexto amplamente documentado de violência de colonos judeus extremistas contra a população palestina na Cisjordânia ocupada, os soldados israelenses visam jornalistas e impedem, assim, que a informação saia desse território cada vez mais isolado do resto do mundo.”

Foi o alerta feito pela RSF em comunicado divulgado na segunda-feira, 24 de agosto.

Essa estratégia de controle da informação, integrada à hasbara — termo que designa a propaganda israelense — é eficaz? Na opinião pública israelense, sim. Na opinião pública mundial, os resultados são menos favoráveis. Uma pesquisa do Pew Research Center, publicada em junho, mostrou uma deterioração significativa da imagem do Estado israelense.

“Em dezoito dos trinta e seis países pesquisados, mais de 67% dos adultos têm uma opinião desfavorável de Israel, enquanto 25% têm uma opinião favorável.”

Apesar disso, os recursos destinados à hasbara são consideráveis. O governo aumentou significativamente os recursos orçamentários destinados a essa atividade. Em setembro de 2025, o Le Monde relatou como o Exército israelense levou influenciadores a Gaza para divulgar sua narrativa sobre a inexistência de fome no território.

As modalidades dessa guerra também evoluem rapidamente. Hoje, o Estado israelense aposta na inteligência artificial. Uma investigação de um centro de estudos norte-americano, o Quincy Institute, revelou no fim de julho que o governo financiou a produção de dezenas de relatórios destinados a influenciar os sistemas de IA e, por meio deles, moldar as respostas dadas às perguntas feitas pelos cidadãos norte-americanos. Entre os temas abordados nos documentos enviados à administração dos Estados Unidos e consultados pelo Le Monde estava a seguinte questão: o Exército israelense é o mais moral do mundo?

* Correspondente do Le Monde em Jerusalém. Reportagem publicada no Le Monde em 26/08/2026.

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