Depois que “israel” matou seus três filhos, ela encontrou esperança em um recém-nascido. Então ele também foi morto
Fatima Nofal deu à luz Zaid após perder três filhos em um ataque aéreo israelense em 2023. Quinze meses depois, outro ataque israelense o matou no centro de Gaza
Zaid Nofal, de 15 meses, foi morto em um ataque israelense em 20 de julho de 2026 (Foto Fornecida ao MEE).
Por Nada Nabil*
Em um pequeno quarto ao lado de uma janela aberta, Zaid Nofal, de 15 meses, dormia sem cobertor, incapaz de escapar do calor sufocante do verão em Gaza.
Às 3h da manhã, um ataque aéreo israelense atingiu a casa de sua família no campo de refugiados de al-Bureij, soterrando seu pequeno corpo sob os escombros.
A poucos metros dali, sua mãe palestina, Fatima Nofal, de 38 anos, permanecia em choque.
Coberta de sangue e poeira enquanto vizinhos gritavam ao seu redor, ela se deparava com uma tragédia que já havia vivido antes: Zaid era o quarto filho que ela perdia em ataques israelenses, depois que três de seus irmãos foram mortos em 2023.
Os vizinhos correram para a casa da família, que já havia sido parcialmente destruída anteriormente, antes de ser reconstruída após o anúncio do cessar-fogo de outubro de 2025.
“Ainda não consegui processar o que aconteceu. Continuo em um estado de profundo choque”, disse Nofal ao Middle East Eye.
“Tudo o que lembro é de ter acordado poucos minutos antes do ataque. Mudei de lugar por causa do calor intenso, deixando meu pequeno Zaid perto da janela para que a brisa o ajudasse a dormir.”
Embora tenha ficado ferida no ataque, Nofal se recusou a sair e pediu aos vizinhos que procurassem seu filho.
“O quarto estava cheio de destroços, e eles começaram a retirar os escombros para encontrá-lo”, contou.
Zaid acabou sendo retirado debaixo dos escombros, envolto em um cobertor leve, e levado ao hospital.
Três filhos mortos em 2023
Sua morte reabriu o trauma de 13 de outubro de 2023, quando um ataque aéreo israelense matou três dos filhos de Nofal. Apenas ela e suas duas filhas sobreviveram.
No início da guerra, Nofal e sua família fugiram do campo de refugiados de al-Bureij, acreditando que a área de al-Sawarha, na cidade costeira de al-Zawaida, seria mais segura.
“Percebemos a gravidade da situação e decidimos fugir porque pensávamos que seria mais seguro do que permanecer perto da fronteira”, disse ela.
“Mas nunca imaginamos que o lugar para onde fomos em busca de segurança se tornaria o local onde eu testemunharia a morte dos meus três filhos e da maior parte da família do meu marido.”
Aquele ataque matou seu filho mais velho, Amin, de 16 anos, Hamza, de 11 anos, e Ahmed, seu filho recém-nascido, que tinha apenas 22 dias de vida.
Nofal e suas duas filhas também ficaram feridas. O abrigo onde estavam foi destruído, obrigando-as a passar por sucessivos deslocamentos.
Um pequeno milagre
Como quase toda a população de Gaza, Nofal suportou meses de deslocamento, perdas e incerteza desde o início da guerra, em outubro de 2023.
Dez meses após perder seus três filhos, um momento de esperança entrou em sua vida quando descobriu que estava grávida. Sua felicidade aumentou quando soube que esperava um menino.
Nofal deu à luz Zaid em 16 de abril de 2025, em meio à guerra em curso contra Gaza. Ela acreditava que ele havia vindo para preencher o vazio deixado pelos filhos que perdera.
“O nascimento de Zaid foi o acontecimento mais significativo de nossas vidas durante a guerra”, recordou Nofal.
“Sua chegada trouxe uma imensa alegria para toda a família; todos o celebraram como um pequeno milagre que veio iluminar nossas vidas após longos meses e noites de dor e lágrimas.”
Parentes sugeriram dar a ele o nome de um de seus irmãos falecidos, mas Nofal recusou.
“Eu queria que ele tivesse seu próprio nome e seu próprio destino”, disse.
Com o passar do tempo, Zaid tornou-se a “alegria da casa”. Suas irmãs se apegaram especialmente a ele.
“Sempre que eu o levava à clínica para vacinas ou consultas, suas irmãs ficavam esperando por ele na escada. Elas não suportavam ficar longe dele, nem por algumas horas.”
Nofal falou ao MEE enquanto se recuperava de queimaduras nos pés. Sua filha mais velha, Baraa, sofreu ferimentos leves, enquanto a mais nova, Lina, sofreu um traumatismo craniano.
“Lina ainda está no hospital. Quando fui visitá-la, a primeira coisa que perguntou foi sobre Zaid. Eu não consegui contar a verdade enquanto ela ainda estava ferida. Disse que ele estava bem e esperando por ela”, contou Nofal.
“Não sei como vou lhe dizer a verdade quando ela receber alta.”
Nofal afirmou que sua dor é agravada pela infância que Zaid nunca pôde ter.
“No dia em que foi morto, ele estava inquieto à tarde e queria sair. Eu disse às suas irmãs o quanto gostaria de levá-lo para passear, mas não restam lugares para as crianças brincarem.”
“Ele passou toda a sua vida dentro de casa. Até seus primos haviam sido mortos em ataques aéreos israelenses, então ele não tinha ninguém com quem brincar.”

O nascimento de Zaid Nofal foi um “milagre” para sua família, diz sua mãe (Foto fornecida ao MEE).
Israel estaria “deliberadamente” visando crianças
Apesar de um cessar-fogo acordado no ano passado para interromper a guerra genocida de dois anos contra Gaza, Israel continuou bombardeando a Faixa quase diariamente.
Ataques israelenses mataram pelo menos 1.200 pessoas desde o início do cessar-fogo, há quase 10 meses.
No total, o exército israelense matou mais de 73 mil palestinos desde outubro de 2023.
As crianças não foram poupadas do crescente número de vítimas.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informou em junho que cerca de 260 crianças haviam sido mortas em Gaza desde o início do cessar-fogo.
O porta-voz da Unicef, James Elder, descreveu a situação como uma “ilusão cruel e mortal de cessar-fogo”, afirmando que, em média, uma criança estava sendo morta por dia.
Após testemunhar a morte dos próprios filhos, Nofal acredita que civis palestinos, especialmente mulheres e crianças, têm sido deliberadamente alvo de Israel.
“Desde o início da guerra, a grande maioria das vítimas que vimos são mulheres e crianças”, disse ela. “Israel está determinado a nos matar e não precisa de justificativa para fazê-lo.”
No mesmo dia em que Zaid foi morto no campo de refugiados de al-Bureij, Ratil al-Abadla, de nove anos, também foi morta em um ataque israelense contra a tenda de seu tio em al-Mawasi.
Al-Abadla havia visitado o tio com a mãe e os irmãos dois dias antes, numa tentativa de lhe proporcionar uma breve fuga da realidade da guerra.
Um vídeo de seu pai, Abdullah al-Abadla, segurando seu corpo e perguntando o que sua filha havia feito para merecer tal destino, espalhou-se amplamente pela internet.
Para famílias em toda Gaza, essa pergunta tornou-se familiar.
A comissão internacional independente de inquérito da ONU afirmou ter encontrado evidências de que forças israelenses têm deliberadamente atacado crianças palestinas, descrevendo tais ações como parte de uma conduta que contribuiu para sua conclusão de que Israel cometeu atos genocidas.
Para Nofal, porém, nenhum relatório ou estatística pode trazer de volta Zaid ou os três filhos que perdeu antes dele.
Enquanto permanece ao lado da filha ferida no hospital, ela enfrenta uma nova luta: encontrar um lugar para morar e contar à filha que seu amado irmãozinho não voltará.
“O fogo está queimando em meu peito, e eu não sei quem vai apagá-lo”, disse.
* Jornalista e defensora dos direitos humanos baseada em Gaza. Publicado no Middle East Eye em 01/08/2026.
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