Palestinos em “israel” são proibidos de usar o árabe nos locais de trabalho
De farmácias a lojas de roupas, palestinos dizem que patrões estão cada vez mais policiando o idioma que falam, enquanto advogados alertam que a discriminação se tornou mais explícita
Habitantes originários de "israel" participam de um protesto em Tel Aviv contra a inação do regime de ocupação diante do aumento da violência na comunidade (Eyal Warshavsky/SOPA Images via Reuters).
Por Samah Watad*
Salma** ficou surpresa quando sua gerente enviou uma mensagem ao grupo de WhatsApp da equipe instruindo os funcionários a reconhecer uma proibição de falar árabe na loja.
A palestina de 19 anos, cidadã de Israel [NT: habitante originária das terras roubadas pelos euro-judeus a partir de 1947-48], e seus colegas acharam aquilo absurdo e ignoraram a ordem.
“Mas, no dia seguinte, ficamos com medo dela e tentamos permanecer em silêncio”, disse ela ao Middle East Eye.
O silêncio não durou.
Uma colega falou brevemente em árabe ao dizer que estava levando uma caixa para o depósito, usando até mesmo a palavra em hebraico para “depósito”, deixando claro que estava falando sobre trabalho.
A gerente explodiu.
“Ela começou a gritar, chutar caixas e dizer que éramos proibidos de falar árabe”, recordou Salma.
“Ela nos disse: ‘Este é um Estado judeu. Aqui falamos apenas hebraico. O árabe fica em casa’.”
A experiência de Salma é uma entre várias relatadas nos últimos meses por trabalhadores palestinos que afirmam ter sido instruídos a não falar árabe no trabalho.
As denúncias abrangem hospitais, farmácias e lojas de varejo.
Um dos casos mais recentes envolveu uma funcionária palestina de uma filial da Good Pharm em Jaffa. A mídia local publicou mensagens de WhatsApp nas quais uma gerente supostamente ameaçava trabalhadores que falassem idiomas diferentes do hebraico, alegando que ouvir árabe poderia afastar clientes traumatizados pelos ataques de 7 de outubro.
A Good Pharm afirmou que emprega e atende pessoas de todos os segmentos da sociedade, está comprometida com a igualdade e trataria internamente da conduta da gerente. Trabalhadores palestinos, no entanto, dizem que pouca coisa mudou.
Sentindo o racismo
No caso de Salma, todos os funcionários da loja eram palestinos. A gerente era a única israelense judia presente.
Ela disse que a proibição continuava valendo mesmo quando a loja estava fechada e não havia clientes.
Vários funcionários protestaram. Em seguida, ficaram sem escalas de trabalho por cerca de dois meses, antes de receberem propostas de transferência para filiais de difícil acesso.
“Em vez de remover a gerente ou responsabilizá-la, a empresa preferiu nos pedir para mudar de local de trabalho”, afirmou.
Embora a rede varejista diga condenar o racismo e a discriminação, Salma afirma que a experiência permaneceu marcada nela.
Agora se preparando para ingressar na universidade, ela diz sentir mais ansiedade ao entrar em outro ambiente predominantemente judeu.
“Eu já tinha ouvido falar de racismo antes disso, mas nunca entendi a sensação até agora”, disse.
“Foi a primeira vez que entendi o que significa alguém tratá-lo mal simplesmente por causa da sua identidade.”
Aumento da discriminação
Os cidadãos palestinos de Israel são a população nativa da Palestina histórica que permaneceu em suas terras após as milícias sionistas deslocarem cerca de 750 mil palestinos durante a Nakba de 1948 para criar o Estado de Israel.
Hoje, essa comunidade soma aproximadamente dois milhões de pessoas, representando cerca de 20% da população de Israel.
Desde outubro de 2023, eles enfrentam um aumento de prisões, processos disciplinares e perda de empregos devido a manifestações políticas relacionadas ao genocídio em Gaza.
Advogados afirmam que os casos de discriminação no ambiente de trabalho que vêm à tona provavelmente representam apenas uma fração do que realmente acontece. O que mudou, argumentam, não é a existência da discriminação, mas a confiança com que ela é expressa.
“A maioria dos casos que agora chegam ao meu escritório vindos de ambientes de trabalho judeus envolve racismo”, disse ao Middle East Eye Alya Zoabi, advogada especializada em direito trabalhista.
“Houve um aumento significativo.”
Zoabi descreveu um caso em que uma jovem funcionária palestina sofreu um ataque de pânico após meses de tratamento discriminatório por parte de sua gerente.
Uma ambulância foi chamada, disse ela, mas o empregador enviou a mulher sozinha ao hospital.
Em outro caso, uma funcionária palestina grávida foi demitida sem a autorização legalmente exigida.
Desafios legais
Em 2018, Israel aprovou a controversa Lei do Estado-Nação, declarando o hebraico como a única língua oficial do Estado e rebaixando o árabe à condição de idioma com “status especial”.
Embora a lei tenha preservado o uso prático do árabe em serviços governamentais, educação e sinalização pública, palestinos afirmam que a pressão sobre as expressões de sua identidade se intensificou desde então.
Segundo Zoabi, o desafio do ponto de vista jurídico muitas vezes não é reconhecer a discriminação, mas provar a motivação do empregador dentro dos padrões exigidos pelos tribunais.
A Lei de Igualdade de Oportunidades no Emprego de Israel proíbe discriminação com base, entre outros fatores, em nacionalidade, raça e religião. Ela não garante explicitamente um direito irrestrito ao uso de qualquer idioma em todos os locais de trabalho.
Especialistas jurídicos afirmam que uma proibição generalizada do árabe, especialmente em conversas privadas ou quando o hebraico não é necessário para a função, pode configurar discriminação ilegal.
“Mas a proteção jurídica formal significa pouco quando sua aplicação é lenta, cara e incerta”, disse Zoabi.
“Houve uma indulgência em relação aos nossos casos que não pode ser ignorada desde 7 de outubro”, acrescentou, afirmando que ações potencialmente avaliadas em dezenas de milhares de shekels frequentemente terminam em acordos por apenas uma fração desse valor.
O risco financeiro desestimula tanto trabalhadores quanto advogados a levarem os casos adiante, mesmo quando os funcionários acreditam que a discriminação é evidente.
Tanto Salma quanto a funcionária da Good Pharm acabaram desistindo dos planos de processar seus empregadores após serem aconselhadas de que os casos seriam longos, caros e difíceis de provar.
“Quando estou diante de um tribunal, sinto que sou ao mesmo tempo a advogada e a cliente”, disse Zoabi.
“Como mulher palestina em Israel, eu também vivencio esse racismo.”
**O nome foi alterado para proteger a identidade da pessoa.
* Samah Watad é uma jornalista palestina e pesquisadora investigativa, cobrindo política e questões sociais. Reportagem publicada no Middle East Eye em 27/07/2026.
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