Genocídio de “israel” em Gaza deixa número recorde de órfãos e viúvas

Bombardeios de "israel" deixam crianças sem pais e mulheres sem companheiros, enquanto famílias enlutadas lutam para sobreviver ao deslocamento, à pobreza e à perda de seus entes queridos.

06/11/2026

Uma criança palestina aparece por uma abertura no tecido em frente à tenda de sua família na Cidade de Gaza, em 13 de outubro de 2026 (Majdi Fathi/NurPhoto via Reuters).

Por Maha Hussaini*

A cada dois dias, os três irmãos Abu Asser se mudam da tenda de uma tia para a de outra, uma rotina que começou depois que ficaram órfãos, poucos dias após o cessar-fogo em Gaza no ano passado.

Mariam, de 16 anos, Aya, de 14, e Jebril, de 12, perderam o pai durante a ofensiva de israel contra Gaza em 2014.

Depois que sua casa na Cidade de Gaza foi destruída durante o genocídio israelense iniciado em 2023, eles buscaram refúgio com a mãe, Islam, em uma tenda improvisada em Deir al-Balah, no centro de Gaza.

Dezenove dias após a entrada em vigor do acordo de cessar-fogo, em 10 de outubro de 2025, uma bomba israelense atingiu a tenda, matando sua mãe diante de seus olhos.

Os irmãos palestinos estão entre as 54.468 crianças em Gaza que perderam um ou ambos os pais desde o início do genocídio, em outubro de 2023, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social palestino em Gaza.

Duas das tias que cuidam deles também estão criando sozinhas seus próprios filhos, depois de perderem os maridos durante o genocídio.

“As crianças não têm um lar estável. Elas ficam principalmente com a avó paterna, mas continuam se mudando entre nós [suas tias maternas], passando duas noites seguidas com cada tia”, contou Warda al-Muzeini, tia viúva das crianças, ao Middle East Eye.

“Tentamos dar apoio emocional a elas, especialmente ao mais novo, Jebril, que estava sentado no colo da mãe quando a bomba atingiu a tenda e que também ficou ferido.

“Ele viu a mãe morrer diante de seus olhos.”

Muzeini perdeu o marido em um ataque aéreo israelense durante o genocídio. Agora, cria sozinha os quatro filhos do casal.

Sem emprego ou uma renda confiável, ela enfrenta dificuldades até mesmo para garantir uma refeição por dia.

“Minha irmã viúva e eu já temos dificuldades para colocar comida na mesa para nossos próprios filhos. Mas também precisamos cuidar dos filhos da nossa irmã, que não têm mais ninguém”, disse Muzeini.

“Dividimos a responsabilidade. Cada uma das três irmãs compra alguma coisa para as crianças sempre que pode. Uma compra pijamas, outra compra chinelos e outra lhes dá dinheiro suficiente para algumas despesas durante alguns dias.”

Uma infância perdida

Em toda Gaza, há pelo menos 64 mil viúvas e 71 mil crianças órfãs.

Os números incluem aquelas que perderam seus entes queridos durante o genocídio e aquelas que perderam cônjuges ou pais em ataques militares israelenses anteriores contra Gaza.

De acordo com o sistema de registro de órfãos do Ministério do Desenvolvimento Social, cerca de 3 mil crianças não têm nenhum tutor, responsável legal ou cuidador registrado.

“Os números não conseguem realmente retratar o sofrimento diário desses grupos em Gaza”, disse Aziza al-Kahlout, porta-voz do ministério, ao MEE.

“Uma criança que perdeu ambos os pais não perdeu apenas o cuidado e a segurança, mas também foi privada da educação e da infância, sendo forçada a assumir responsabilidades muito além de sua idade.”

As mulheres que se tornam as únicas provedoras de suas famílias enfrentam o duplo fardo de sustentar os filhos e criá-los em meio à devastação deixada pela guerra, acrescentou Khalout.

Ela alertou que as crianças órfãs enfrentam um risco maior de abandonar a escola e de se casar precocemente, em meio à deterioração das condições econômicas e humanitárias e à falta de abrigos adequados.

“Há sinais profundamente alarmantes de aumento dos riscos de trabalho infantil, abandono escolar e casamento precoce em Gaza, impulsionados pela pobreza, pelo deslocamento e pela perda dos provedores das famílias”, afirmou.

Uma família inteira exterminada

Para as crianças que se tornam as únicas sobreviventes de suas famílias, a perda traz ainda outra crueldade: elas precisam lamentar a morte dos pais e irmãos sozinhas, sem ninguém com quem compartilhar suas lembranças ou sua dor.

Entre elas está Wafaa al-Attar, que passou de filha e irmã a órfã e única sobrevivente de sua família em cinco minutos.

Ela tinha 10 anos quando saiu para carregar o celular do pai na casa próxima de seu tio.

Enquanto estava fora, um ataque aéreo israelense arrasou a casa de sua família em Deir al-Balah, no centro de Gaza, matando seus pais e todos os seus quatro irmãos.

“Num piscar de olhos, fiquei sem família”, contou Attar, agora com 13 anos, ao MEE.

“Meu pai estava ao telefone quando a bateria acabou. Ele me pediu para carregá-lo na casa do meu tio porque ele tinha painéis solares e, justamente quando eu estava prestes a entrar, houve uma explosão enorme”, recordou.

“Olhei para trás, e nossa casa já não existia.”

O ataque ocorreu em 22 de fevereiro de 2024, atingindo um edifício de vários andares onde a família estava e matando o pai de Attar, Ahmed, sua mãe, Khouloud, e seus quatro irmãos: Rital, de oito anos, Muhammed, de cinco, Obada, de três, e Yazan, de nove meses.

Attar sofreu ferimentos leves causados por estilhaços e foi levada ao hospital. Ela ainda não sabia o que havia acontecido com sua família. Continuou perguntando, mas ninguém respondia, até que seu tio chegou.

“Ele me disse: ‘Que Deus tenha misericórdia deles. Que Deus a recompense’”, recordou.

Ela parou de chorar e ficou em silêncio, incapaz de assimilar o que havia acabado de ouvir. O choque durou duas ou três horas, até que ela voltou à casa do tio.

“Então, fiquei pensando: ‘Todos eles de uma só vez?’”

Durante meses, Attar teve dificuldades para compreender a perda e temeu o que viria pela frente. Inicialmente, ficou com os avós, perguntando-se como sobreviveria sem sua família.

“Tive crises emocionais. Durante meses, desejei ter estado com eles dentro de casa quando ela foi bombardeada. Desejei ter sido morta junto com eles”, disse.

Ela também ficou sem seus irmãos para compartilhar o luto. “Eu nem sequer tive a oportunidade de conversar com meus irmãos sobre isso.”

Por fim, Attar foi morar com seu tio, a esposa dele e o bebê recém-nascido do casal. O apoio deles a ajudou a lidar com a perda, embora o sofrimento permanecesse.

Sempre que ela tinha uma crise, a esposa do tio a consolava e lembrava que seu pai gostaria que ela se mantivesse forte.

“Eles tornaram as coisas mais fáceis para mim. Eu conseguia ver como tentavam me apoiar e me confortar”, disse Attar.

“Mas, é claro, sei que ninguém jamais poderia substituir minha própria família.”

* Maha Hussaini é uma jornalista premiada e ativista dos direitos humanos radicada em Gaza. Maha iniciou sua carreira no jornalismo cobrindo a campanha militar de israel na Faixa de Gaza, em julho de 2014. Em 2020, recebeu o prestigioso Prêmio Martin Adler por seu trabalho como jornalista freelancer. Reportagem publicada em 24/10/2026 no Middle East Eye.

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