A Nakba no RS: livro resgata a memória da diáspora palestina no interior gaúcho
Pesquisa da historiadora Vitória Miron Husein revela como o trauma do exílio, o apagamento burocrático e a resistência cultural moldaram a presença palestina no Rio Grande do Sul.
Husni Hussein, personagem central na obra que retrata a diáspora palestina no interior do Rio Grande do Sul. (Fotos: arquivo da família)
A reconstrução da história da imigração e da presença árabe na formação social, econômica e cultural do Rio Grande do Sul ganha um capítulo fundamental com o lançamento do volume 9 da obra História dos povos formadores do Rio Grande do Sul: entre pampas, imigrantes e diásporas, intitulado Imigração Árabe: sírios, libaneses e palestinos (Editora Schreiben, 2026, 192 p.). Organizada por Júlio Bittencourt-Francisco e sob coordenação geral de Luciana Sanguiné e Débora Karpowicz, a publicação dedica atenção especial às dinâmicas da diáspora palestina no Sul do país.
Entre as contribuições mais impactantes do livro, destaca-se o capítulo “Nakba, diáspora e tentativa de apagamento: a presença palestina em São Francisco de Assis, Rio Grande do Sul”, assinado pela pesquisadora Vitória Miron Husein (páginas 65 a 80), mestra em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A autora traz à luz uma análise profunda sobre como a catástrofe palestina de 1948 (a Nakba) atravessou gerações, moldou trajetórias de vida no interior do estado e impôs resistências contra a violência do invisibilhamento histórico e documental.
Do deslocamento forçado ao interior gaúcho
Diferente de visões historiográficas tradicionais que interpretam os fluxos migratórios a partir de uma lógica puramente voluntária ou econômica, a investigação de Vitória Miron Husein situa o deslocamento palestino como um processo de exílio decorrente da limpeza étnica e da consolidação do colonialismo na Palestina.
Ao resgatar memórias familiares, registros documentais, acervos fotográficos e história oral, o trabalho reconstrói a trajetória de seu avô, Husni Mohammed Hussein, e sua fixação no município de São Francisco de Assis, no interior do Rio Grande do Sul.
Para a autora, o pertencimento à diáspora esteve presente no dia a dia da família, articulado por meio do convívio comunitário e dos afetos:
“Fosse nas reuniões com patrícios, jantares, chás da tarde, confraternizações; nas viagens que meu avô fazia para visitar a parte da família que permaneceu na Jordânia; na culinária que ele ensinou minha avó brasileira, que posteriormente repassou para meu pai e para suas netas (eu inclusa),” o fato de ser um palestino em diáspora atravessou o cotidiano de Husni e sua família, relata Vitória.
Husni Hussein retornou à Jordânia em 2007, quando sua neta tinha apenas seis anos de idade. Ele faleceu sem que jamais se reencontrassem.
A experiência vivida em São Francisco de Assis conecta-se com a dinâmica de outras cidades gaúchas — como Santa Maria, Porto Alegre, Pelotas e municípios da região fronteiriça (Chuí, Santana do Livramento e Uruguaiana) —, onde redes de solidariedade, a prática do mascateio e a constituição de pequenos comércios serviram de esteira para o estabelecimento dos imigrantes e suas famílias.
A Nakba, o apagamento documental e a resistência cotidiana
O texto da pesquisadora enfatiza que o trauma da Nakba não ficou circunscrito ao Oriente Médio; ele viajou na bagagem de cada refugiado. No Brasil, a tentativa de apagamento manifestou-se frequentemente na burocracia, onde imigrantes palestinos eram registrados sob nacionalidades genéricas ou incorretas, omitindo a existência da Palestina como pátria de origem.
Essa violência institucional foi vivida diretamente pela própria autora ao investigar suas origens:
“Eu mesma não sabia que meu avô era palestino até acessar o atestado de óbito dele. Nos demais documentos ele consta como jordaniano, inclusive no atestado de óbito. Porém, no atestado ele consta como nascido em Al Qubab, que foi uma vila destruída pelos sionistas na Nakba”, revela a historiadora.
Contudo, contra a negação e o esquecimento, a comunidade palestina em São Francisco de Assis mobilizou símbolos de pertencimento e preservação cultural. A manutenção das tradições culinárias, a guarda de objetos afetivos e a celebração comunitária funcionaram como trincheiras de resistência identitária:
“Na minha família temos muitos itens materiais deixados pelo meu avô: Alcorão, itens de decoração, itens de culinária, roupas e adereços como kufiya… quando eu descobri que meu avô era um palestino da Nakba tudo isso começou a ganhar outro significado dentro de nossa família: somos uma família da diáspora. Expliquei para os meus familiares o que isso significava. Hoje tentamos manter a cultura e a identidade viva através principalmente da música, da culinária e do estudo para que não se esqueça e não se apague”, pontua Vitória.
Relevância para a historiografia e a luta palestina
A inclusão dessa pesquisa na coletânea História dos povos formadores do Rio Grande do Sul representa um passo crucial para reconhecer que a história gaúcha também se constrói com as memórias da resistência e da diáspora palestina. Vitória Miron Husein destaca a urgência de diferenciar as trajetórias dentro do universo árabe no estado:
“A importância é imensa. Nós não somos ‘só’ árabes. Somos palestinos. Chega de nos colocarem em um caldeirão com sírios e libaneses. Cada um destes tem suas particularidades, que devem ser respeitadas, assim como as semelhanças, celebradas”, defende a pesquisadora.“Foi uma oportunidade incrível adicionar um texto sobre imigração palestina em uma coletânea sobre povos árabes no Rio Grande do Sul. A migração palestina está vinculada ao horror do genocídio, ao imperialismo e colonialismo, mas nas experiências dos palestinos em diáspora podemos ver histórias de sua força, da importância da memória e da construção de identidades”, conclui.
Assim, o trabalho de Vitória Miron Husein é um valioso documento de resgate da memória nacional e uma denúncia necessária contra a tentativa de apagamento histórico perpetrada pelo projeto sionista. Conhecer a história dos palestinos no interior do Rio Grande do Sul é reafirmar que, por mais longe que a diáspora nos leve, a identidade e a luta da Palestina continuam inalienáveis.
O volume 9 da obra História dos povos formadores do Rio Grande do Sul: entre pampas, imigrantes e diásporas, intitulado Imigração Árabe: sírios, libaneses e palestinos, será lançado oficialmente no próximo dia 28 às 16h no Cirandar (Rua Duque de Caxias, 1297, Centro Histórico de Porto Alegre). A obra também está disponível para download gratuito no site da Editora Schreiben.
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