Quando o fanatismo religioso sabota o julgamento do genocídio de palestinos em Gaza

“O Senhor está contando comigo para ficar ao lado de Israel”, disse a vice-presidente da Corte Internacional de Justiça, acrescentando que sinais do fim dos tempos “estão sendo mostrados no Oriente Médio”

15/08/2025

Julia Sebutinde (Corte Internacional de Justiça)

Por Imran Mulla*

Julia Sebutinde, vice-presidente ugandense da Corte Internacional de Justiça (CIJ), afirmou que Deus “está contando comigo para ficar ao lado de Israel” e que os sinais do “fim dos tempos” estão “sendo mostrados no Oriente Médio”.

No início do ano passado, Sebutinde foi a única juíza em um painel de 17 membros da CIJ que decidiu que era “plausível” que Israel estivesse cometendo genocídio em Gaza, tendo votado contra todas as seis medidas adotadas pelo tribunal.

E, em julho de 2024, ela foi novamente a única opositora quando um painel de 15 juízes concluiu que a ocupação israelense dos territórios palestinos, que já dura décadas, era “ilegal”.

Em fevereiro de 2025, um estudo a acusou de ter copiado diretamente frases quase palavra por palavra em sua opinião contrária escrita em 19 de julho de 2024.

A pesquisa alegava que “pelo menos 32% da discordância de Sebutinde foi plagiada”. Sebutinde recusou-se a comentar a polêmica ao MEE na época.

Agora, a juíza de 71 anos falou publicamente pela primeira vez sobre as críticas à sua posição.

“O Senhor está contando comigo para ficar ao lado de Israel”, disse ela em 10 de agosto, em um discurso na Igreja Watoto, em Uganda, segundo o site de notícias ugandense Monitor.

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“O mundo inteiro estava contra Israel, inclusive meu país.”

Sebutinde descreveu sua decepção com o fato de o governo de Uganda ter se distanciado de sua posição.

“A posição adotada pela juíza Sebutinde é sua própria opinião individual e independente, e não reflete de forma alguma a posição do governo da República de Uganda”, declarou um porta-voz do governo em janeiro de 2024.

Sebutinde recordou: “mesmo o governo estando contra mim, lembro-me de um embaixador dizendo: ‘Ignorem-na porque sua decisão não representa Uganda’.”

‘Deus me permitiu fazer parte dos últimos dias’

Sebutinde, que serviu brevemente como presidente interina da CIJ no início deste ano, revelou ainda que se candidatou ao cargo de vice-presidente da corte mundial, função que agora ocupa, porque sentiu-se compelida por Deus a fazê-lo.

Ela disse que Deus a chamou de “covarde” e lhe disse para “acordar” quando ela estava deitada na cama, na manhã da eleição, preocupada com as críticas sobre sua postura em relação a Israel.

A juíza também compartilhou suas reflexões sobre Gaza, dizendo que a situação sinaliza os “fins dos tempos” previstos na Bíblia.

“Tenho uma convicção muito forte de que estamos no fim dos tempos”, declarou. “Os sinais estão sendo mostrados no Oriente Médio. Quero estar do lado certo da história.”

Ela prosseguiu: “Estou convencida de que o tempo está se esgotando. Eu os encorajaria a acompanhar os acontecimentos em Israel. Sinto-me honrada por Deus ter me permitido fazer parte dos últimos dias.”

O estudo que acusava Sebutinde de ter plagiado sua opinião contrária à decisão da CIJ de julho foi produzido por um pesquisador palestino anônimo para o livro Gaza Gravediggers, do acadêmico norte-americano Norman Finkelstein.

A pesquisa alegava que ela plagiou textos de vários comentaristas e advogados pró-Israel e que copiou diretamente diversos trechos da Wikipédia e da BBC News.

* Reportagem publicada no Middle East Eye em 15/08/2025.

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