Sem equipamentos permitidos em Gaza, palestinos estão cavando com as próprias mãos para recuperar os mortos
Seis meses após o chamado cessar-fogo, Mahmoud Khilla perdeu a esperança de que "israel" algum dia permitiria a entrada de escavadeiras e outros equipamentos em Gaza para que os palestinos recuperassem os milhares de mortos desaparecidos. Na semana passada, ele e vários parentes decidiram embarcar na tarefa aparentemente impossível de cavar a enorme pilha de escombros usando nada além de marretas e pás.
Mahmoud Khilla e parentes escavam os escombros das casas de sua família para recuperar os restos mortais de familiares mortos em um ataque aéreo israelense em 21 de dezembro de 2023. 12 de maio de 2026. (Captura de tela de vídeo feita por Mohammed Ahmed.)
Por Mohammed Ahmed*
Mahmoud Khilla esperou por quase dois anos e meio para que os restos mortais de sua família fossem retirados dos escombros de sua casa antes de decidir resolver a situação com as próprias mãos. Os militares israelenses bombardearam o prédio de cinco andares em Jabaliya, ao norte da Cidade de Gaza, em 21 de dezembro de 2023, demolindo-o com dois mísseis e matando todas as 39 pessoas que estavam dentro. Mahmoud havia saído apenas 10 minutos antes para buscar comida para o jantar. Quando voltou, encontrou um massacre.
“Não houve disparo de advertência, nenhuma ligação, nenhum aviso prévio”, disse Khilla ao Drop Site News. “Havia 24 crianças na casa com menos de 17 anos. Eles mataram todas.”
Dezoito dos corpos foram retirados logo após o ataque, mas 21 permaneceram soterrados, incluindo sua esposa, filhos, pai, irmão, cunhadas, sobrinhas, sobrinhos e outros parentes.
“Por quase 30 meses, pedimos repetidamente à Defesa Civil, à prefeitura e às instituições locais que viessem remover os escombros para que pudéssemos recuperar os corpos. Não houve resposta”, disse Khilla, de 40 anos, ao Drop Site. “Apelamos a todos, mas não há equipamentos, não há ferramentas. Eles não conseguiam remover os escombros.”
Khilla falou sentado em uma cadeira sobre os destroços do lugar onde antes ficava a casa de sua família — uma pequena montanha de concreto quebrado, com vergalhões retorcidos projetando-se para fora em ângulos irregulares.
“Eu tinha um filho que tinha apenas 40 dias de vida. Meu irmão Ahmed tinha uma filha de 8 meses. A filha mais velha dele tinha 7 anos. O filho do meu irmão Mohammed estava na segunda série, e o mais velho estava na décima série”, disse. “Não há paz de espírito. Você sempre pensa — no inverno você pensa, no verão você pensa — no que aconteceu com eles. Você fica pensando nisso 24 horas por dia, isso vira uma obsessão. Uma hora, a pessoa chega ao seu limite.”
Seis meses após o chamado cessar-fogo, Khilla perdeu a esperança de que Israel algum dia permitiria a entrada de escavadeiras e outros equipamentos em Gaza para que os palestinos recuperassem os milhares de mortos desaparecidos. Na semana passada, ele e vários parentes decidiram embarcar na tarefa aparentemente impossível de cavar a enorme pilha de escombros usando nada além de marretas e pás.
“Já estávamos fartos, então dissemos que nós mesmos os tiraríamos dali”, afirmou. “Mas tudo o que temos são equipamentos quebrados e ferramentas quebradas. Nem sequer temos algo para cortar metal.”
Com o som constante dos drones israelenses zumbindo sobre suas cabeças, dois homens empunhando simples marretas se revezavam golpeando o concreto compactado. Outros usavam as próprias mãos para tentar desprender pedaços. Khilla colocava os fragmentos quebrados em um pequeno balde de metal. O trabalho era lento e árduo.
“Nós quebramos e removemos, quebramos e removemos”, disse. “É muito difícil. Minhas mãos estão todas ensanguentadas.”
Na terça-feira, após quatro dias de escavação, eles conseguiram encontrar os restos mortais de duas pessoas. Fragmentos de ossos, ossos maiores, um crânio quebrado e roupas decompostas foram cuidadosamente recolhidos em um saco de estopa. Um documento de identidade foi encontrado entre as roupas. O nome: Mohamed Mohamed Salem Khilla. Nascido em 9 de janeiro de 1970. Era o tio de Khilla.
Outro monte de ossos, desta vez muito menores, sem crânio nem roupas, foi recolhido em uma grande lata. A identidade permanece desconhecida.
Três trabalhadores da Defesa Civil, usando trajes de proteção brancos, coletes laranja fluorescentes, capacetes, luvas e máscaras cirúrgicas, acabaram chegando ao local. Eles colocaram cada conjunto de ossos em um saco plástico para cadáveres antes de lacrá-los. Os dois sacos foram levados até a esquina e colocados lado a lado no chão de um beco. Khilla, cercado por duas dúzias de homens e meninos, incluindo os dois trabalhadores da Defesa Civil, ficou diante dos restos mortais e realizou a tradicional oração fúnebre. Em seguida, eles os carregaram pelas ruas ladeadas por escombros até um pequeno cemitério, onde foram enterrados e finalmente puderam descansar.
“Aqueles que são meus ainda não saíram”, disse Khilla. “Vou continuar cavando até recuperar meus filhos, minha esposa e meu pai”, afirmou, antes de também mencionar suas sobrinhas, sobrinhos e outros familiares. “É difícil, mas nós os retiraremos.”
Entre 8.500 e 10.000 corpos permanecem soterrados sob a devastação de Gaza. Muitos esperavam que um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas, que entrou em vigor em 10 de outubro, colocasse fim aos ataques incessantes e ao cerco brutal dos militares israelenses. Nenhuma das duas coisas aconteceu. Israel matou pelo menos 857 palestinos em Gaza e feriu quase 2.500 em ataques quase diários desde o “cessar-fogo”, elevando o total desde o início do genocídio para quase 72.800 mortos.
Israel também intensificou drasticamente seus ataques a Gaza nas cinco semanas desde a interrupção de sua campanha conjunta de bombardeios contra o Irã, realizando 35% mais ataques em abril do que em março, segundo o monitor de conflitos ACLED.
Além da continuidade das mortes, Israel também não permitiu a entrada do número acordado de caminhões de ajuda humanitária em Gaza e impediu a entrada de equipamentos de construção e recuperação. Os trabalhadores de emergência permaneceram sem recursos adequados e incapazes de lidar com a escala da devastação. Apenas 771 corpos foram recuperados desde outubro, segundo o Ministério da Saúde.
“Continuamos dizendo que o mundo precisa perceber a gravidade desta questão”, afirmou Mahmoud Bassal, porta-voz da Defesa Civil, ao Drop Site. “As operações de resgate e intervenção precisam começar, e recursos, suprimentos e equipamentos pesados precisam ser trazidos para que possamos resolver adequadamente esta situação; caso contrário, esses corpos permanecerão lá e a Defesa Civil não terá capacidade de recuperá-los.”
Bassal falou enquanto estava diante de um caminhão da Defesa Civil bastante arranhado, com o para-brisa rachado em vários pontos.
“Muitos cidadãos agora estão recorrendo a resolver a situação por conta própria — intervindo sem notificar a Defesa Civil. Encontramos famílias trabalhando para quebrar blocos de concreto em busca de seus filhos sob os escombros.”
Bassal apontou os perigos inerentes a essas tentativas, incluindo o risco de transmissão de doenças, munições não detonadas ou o colapso de estruturas severamente danificadas enquanto famílias escavam em busca de seus entes queridos.
Muitos corpos podem ter desaparecido para sempre. Palestinos mortos em áreas como Shujaieya ou Beit Hanoun, completamente arrasadas pelos militares israelenses, talvez jamais sejam localizados.
“Os prédios foram varridos. Os corpos foram empurrados por tratores. Será muito difícil saber o paradeiro dessas famílias e muitos deles não serão encontrados”, disse Bassal.
Israel também impediu a entrada de kits de DNA para ajudar na identificação dos restos mortais recuperados.
“Há um esforço para identificá-los visualmente tanto quanto possível, mas não podemos confirmar adequadamente suas identidades sem kits de DNA”, disse Bassal.
De pé ao lado dos escombros, Mahmoud Khilla deslizou pelo celular mostrando fotos de sua família morta. Um bebê sorrindo. Duas meninas pequenas lado a lado. Um close do rosto de uma mulher. Um homem sorrindo enquanto segurava um bebê. Khilla jurou continuar cavando até recuperá-los dos destroços e lhes dar um enterro digno.
“Esta é a situação em Gaza. Mas nós vamos continuar e vamos encontrá-los, se Deus quiser”, disse.
* Reportou da Cidade de Gaza. Sharif Abdel Kouddous contribuiu para esta reportagem. Publicada no Drop Site News em 15/05/2026.
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