‘De volta do inferno’: entidade de monitoramento da imprensa expõe tortura de jornalistas palestinos por “israel”

Organização revela uma “estratégia deliberada” de fome e abuso sexual contra jornalistas palestinos detidos em prisões israelenses

21/02/2026

Pessoas em luto carregam o corpo de um jornalista palestino morto em um ataque israelense em Khan Yunis, Gaza, em 22 de janeiro (AFP/Bashar Taleb).

Por Elis Gjevori*

Jornalistas palestinos detidos por Israel descreveram tortura sistemática, violência sexual e fome dentro de prisões israelenses, segundo um relatório publicado na quinta-feira pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

O relatório, intitulado ‘Voltamos do inferno’, baseia-se em entrevistas com 59 jornalistas palestinos presos desde outubro de 2023.

Todos, exceto um, disseram ter sofrido “tortura, abuso ou outras formas de violência”.

Os depoimentos detalham espancamentos com cassetetes, choques elétricos e a imposição de posições de estresse prolongadas, incluindo ser forçado a permanecer em pé sob água de esgoto. Dois jornalistas afirmaram ter sido estuprados por seus captores israelenses.

O jornalista Sami al-Sai relatou que soldados o despiram e o penetraram com um cassetete e outros objetos dentro de uma pequena cela na prisão de Megiddo, deixando-o em um “estado psicológico severo”.

“Descrições de violência sexual apareceram repetidamente nos depoimentos, com jornalistas descrevendo as agressões como destinadas a humilhá-los, aterrorizá-los e marcá-los permanentemente”, afirma o relatório.

Outros relataram ameaças contra suas famílias, privação de sono por meio de música em volume altíssimo e a negação de atendimento médico urgente, incluindo tratamento para ossos quebrados e lesões oculares.

“A apuração do CPJ mostra um padrão claro na forma como jornalistas palestinos foram tratados sob custódia israelense”, disse a diretora-executiva da organização, Jodie Ginsberg.

“A escala e a consistência desses testemunhos apontam para algo muito além de má conduta isolada”, acrescentou.

“Quando dezenas de jornalistas descrevem de forma independente abusos físicos e psicológicos, a comunidade internacional precisa agir.”

‘Vamos matar sua família’

O jornalista Amin Baraka disse que interrogadores ameaçaram sua família por causa de seu trabalho com a Al Jazeera.

“Um soldado israelense me disse, palavra por palavra em árabe, que o correspondente da Al Jazeera Wael al-Dahdouh nos desafiou e permaneceu na Faixa de Gaza, então matamos a família dele, e vamos matar a sua também”, afirmou.

Dahdouh, chefe do escritório da Al Jazeera Arabic em Gaza, perdeu a esposa, a filha, o filho e o neto em um ataque aéreo israelense enquanto estavam abrigados na casa de um parente.

Ele foi posteriormente ferido em outro ataque que matou seu colega Samer Abudaqa.

O CPJ afirmou que 80% dos entrevistados foram mantidos sob detenção administrativa, sem acusação formal.

Um em cada quatro disse nunca ter se encontrado com um advogado, e a maioria relatou sofrer fome extrema.

O CPJ revisou fotografias que mostravam “rostos emagrecidos, costelas salientes e bochechas encovadas”.

Alguns detidos sobreviveram com “pão mofado e comida estragada”, perdendo em média 23,5 quilos cada um.

Sami al-Sai, disse que soldados atingiram o local de sua recente cirurgia no rim, apesar de ele tê-los informado sobre a operação.

“Voltamos do inferno”, disse Imad Ifranji ao CPJ, usando o termo que os detidos utilizavam para descrever uma ala da notória prisão israelense Sde Teiman.

“Esses não são incidentes isolados”, disse a diretora regional do CPJ, Sara Qudah.

“Eles expõem uma estratégia deliberada para intimidar e silenciar jornalistas, e destruir sua capacidade de testemunhar.”

Quase 300 jornalistas e trabalhadores da mídia palestinos foram mortos em ataques israelenses a Gaza desde outubro de 2023, no que foi descrito como o lugar mais mortal do mundo para jornalistas.

* Jornalista baseado em Istambul. Cobre Bálcãs, Turquia e Oriente Médio. Reportagem publicada no Middle East Eye em 19/02/2026.

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