Como o AIPAC canaliza milhões através de comitês eleitorais de fachada para eleger sionistas nos EUA
Reportagem analisa como o grupo de lobby israelense tem recorrido a comitês de ação política de fachada, com nomes enganosos, para derrotar candidatos críticos de "israel".
Benjamin Netanyahu discursa na conferência de política do AIPAC em Washington, 2018 [Arquivo: Brian Snyder/Reuters].
Por Ali Harb*
Para muitos eleitores em Illinois, nada parecia ostensivamente suspeito no anúncio eleitoral de 30 segundos exibido em meados de março.
O vídeo começa com uma explosão de música alegre, enquanto um narrador elogia a candidata ao Congresso Bushra Amiwala como uma defensora da “verdadeira justiça econômica” e “a escolha certa”.
Mas o vídeo não fazia parte de um esforço genuíno para eleger Amiwala para a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. E a candidata rapidamente se desvinculou dele.
Em vez disso, registros públicos analisados pela Al Jazeera mostram agora que a propaganda foi paga por um comitê de ação política (PAC, na sigla em inglês) associado ao maior grupo de lobby pró-Israel dos EUA.
O financiamento do anúncio veio do American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), que vem despejando dezenas de milhões de dólares em campanhas eleitorais em um esforço para derrotar candidatos críticos a Israel.
Com a temporada das primárias de meio de mandato em pleno andamento, ativistas afirmam que o AIPAC está inclinando a balança em muitas disputas ao Congresso. Segundo eles, suas táticas minam a transparência eleitoral.
“A cada ciclo, o AIPAC mostra o quanto nossa democracia está quebrada e o quanto nosso sistema de financiamento político é corrupto”, disse Usamah Andrabi, porta-voz do grupo progressista Justice Democrats.
“A cada ciclo, eles estão na linha de frente explorando essas brechas para beneficiar seus doadores de direita e às custas dos eleitores.”
PACs de fachada
Em Illinois, o anúncio tinha como objetivo impulsionar Amiwala para retirar votos de candidatos progressistas mais viáveis — especialmente da ativista palestino-americana Kat Abughazaleh, que acabou perdendo a disputa por uma margem estreita.
Embora fosse amplamente acreditado que a Chicago Progressive Partnership — o grupo cujo nome aparecia no anúncio de Amiwala — estivesse ligada ao AIPAC, ela não precisou revelar a origem de seu financiamento até depois das eleições, realizadas em março.
Agora que a votação terminou, documentos da Comissão Eleitoral Federal mostram que a única financiadora da Chicago Progressive Partnership foi a Elect Chicago Women (ECW), outro PAC. Ela contribuiu com US$ 1 milhão para a parceria.
Por sua vez, a ECW havia arrecadado mais de US$ 4 milhões do United Democracy Project (UDP), braço eleitoral do AIPAC, além de outros US$ 1 milhão do investidor Blair Frank, um dos maiores doadores do UDP.
O AIPAC também contribuiu com US$ 1,3 milhão para um terceiro PAC, o Affordable Chicago Now, no que críticos chamam de tentativa de ocultar seus gastos em Illinois.
Defensores dos direitos palestinos afirmam que esse uso de “PACs de fachada” é evidência de como o grupo pró-Israel se tornou “tóxico” entre o eleitorado dos EUA. Eles argumentam que o AIPAC adotou uma estratégia de “boneca russa” — escondendo seus gastos ao canalizar recursos de um PAC para outro — para ocultar seu envolvimento nas eleições primárias.
“Eles são tão impopulares dentro do Partido Democrata que precisam se esconder”, disse Andrabi à Al Jazeera. “Precisamos continuar expondo-os e olhar sob cada pedra para ver se este ou aquele PAC de fachada é financiado pelo AIPAC.”
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Parte da reação negativa veio de uma desilusão pública mais ampla com políticas apoiadas por Israel, incluindo a guerra conjunta EUA-Israel contra o Irã e a ofensiva genocida em Gaza, apoiada pelo AIPAC.
Como resultado, Israel vem perdendo apoio rapidamente entre a opinião pública dos EUA.
Apenas nesta semana, o The New York Times e o Siena College divulgaram uma pesquisa mostrando que 37% dos eleitores dos EUA agora simpatizam com os palestinos, enquanto 35% simpatizam com os israelenses.
Esse número era ainda maior entre os eleitores democratas: 57% disseram sentir maior simpatia pelos palestinos.
O Pew Research Center sugeriu uma reação ainda mais forte à esquerda. Sua pesquisa, realizada no início deste ano, mostrou que 80% dos entrevistados democratas disseram ter uma visão desfavorável de Israel.
Para muitos eleitores, o AIPAC passou a simbolizar a influência excessiva do dinheiro de campanha na política dos EUA, transformando o grupo em um pária — especialmente entre democratas.
Alguns políticos que anteriormente recebiam apoio do grupo agora estão se desvinculando dele.
Omar Shakir, diretor executivo do grupo de direitos humanos sediado nos EUA DAWN, disse que o uso de grupos de fachada pelo AIPAC reflete esse repúdio crescente.
“Canalizar recursos ‘por meio de estruturas em camadas de PACs concebidas para obscurecer a origem do dinheiro reflete fraqueza, não força’”, disse ele à Al Jazeera.
“Eles não conseguem defender o genocídio, o apartheid e a limpeza étnica promovidos por Israel, então estão manipulando o sistema longe da vista do público.”
Falta de transparência
Uma decisão da Suprema Corte dos EUA em 2010 permitiu que corporações e grupos de defesa gastassem quantias ilimitadas de dinheiro em eleições, desde que não coordenem diretamente com as campanhas que apoiam.
Em muitos casos, os PACs não precisam listar todos os seus doadores até depois das eleições. Algumas organizações sem fins lucrativos que influenciam eleições — conhecidas como grupos de “dark money” — sequer precisam revelar seus doadores. E há poucas regras sobre mensagens de campanha.
Especialistas dizem que o AIPAC explorou essas brechas para avançar seus objetivos. Mas a falta de transparência está causando confusão em muitas disputas.
Por exemplo, numa competitiva primária democrata na Pensilvânia, a candidata Ala Stanford insistiu que não recebeu dinheiro do AIPAC.
Mas o maior gastador da disputa foi o 314 Action Fund, um PAC que apoia cientistas democratas e que apoiou Stanford, uma cirurgiã pediátrica.
O AIPAC transferiu US$ 1 milhão ao 314 Action Fund no último ciclo eleitoral, em 2024, mas a extensão do envolvimento do grupo na disputa da Pensilvânia continua incerta.
O legislador estadual progressista Chris Rabb, que condenou as atrocidades israelenses em Gaza como genocídio, acabou vencendo essa primária na terça-feira.
Enquanto isso, em Kentucky, o AIPAC e outros grupos pró-Israel ajudaram a derrotar o congressista Thomas Massie, um raro republicano crítico do presidente Donald Trump.
Foi a primária mais cara da história da Câmara dos Representantes dos EUA, mas os nomes dos doadores do PAC que mais gastou nessa disputa ainda não foram totalmente divulgados ao público.
Embora possa ser difícil comprovar os gastos do AIPAC em algumas corridas eleitorais, Andrabi disse que não basta que candidatos apenas se distanciem do grupo pró-Israel.
“Sabemos que o AIPAC não despeja dinheiro em candidatos a menos que eles estejam dispostos a aprovar automaticamente sua agenda em Washington”, afirmou.
“Então não se trata apenas do que eles dizem ou se negam ter apoio do AIPAC. Vamos perguntar quais políticas eles apoiarão no Congresso. Eles apoiarão um embargo de armas contra Israel? Chamarão um genocídio de genocídio? Vão interromper todo o financiamento ao governo e às Forças Armadas israelenses? Esse é um bom teste decisivo para fazermos.”
As conexões do AIPAC
Além de seu trabalho com o UDP e PACs associados, o AIPAC incentivou doadores individuais a contribuir para as campanhas de 361 legisladores, incluindo o presidente republicano da Câmara, Mike Johnson, e o líder da minoria democrata, Hakeem Jeffries.
O contingente de parlamentares apoiados pelo AIPAC abrange todo o espectro ideológico, desde liberais proeminentes como Ted Lieu até figuras de extrema direita antimuçulmanas, incluindo Randy Fine.
Em suas memórias de 2020, o ex-presidente Barack Obama reconheceu a influência do AIPAC em Washington, afirmando que políticos temiam “cruzar” o grupo de lobby.
“Aqueles que criticavam a política israelense de forma muito contundente corriam o risco de serem rotulados como ‘anti-Israel’ (e possivelmente antissemitas) e enfrentarem um adversário bem financiado na eleição seguinte”, escreveu Obama.
O AIPAC não respondeu ao pedido de comentário da Al Jazeera até o momento da publicação.
Apesar de sua influência amplamente documentada, a estrutura organizacional do AIPAC permanece obscura, assim como seus gastos.
Na quarta-feira, a DAWN divulgou um relatório baseado em informações do LinkedIn para rastrear funcionários atuais e antigos do grupo e suas conexões profissionais.
O relatório concluiu que muitas pessoas que trabalharam para o AIPAC também ocuparam cargos nos governos dos EUA e de Israel.
“A análise da DAWN mostra que 66 ex-funcionários do AIPAC atualmente trabalham no governo dos EUA, do Congresso à Casa Branca e a vários ramos das Forças Armadas; quase duas dezenas de funcionários atuais do AIPAC trabalharam anteriormente em órgãos governamentais dos EUA”, diz o relatório.
“As relações pessoais e profissionais resultantes desse tipo de porta giratória formam a espinha dorsal da influência política em Washington, como demonstram as centenas de conexões profissionais entre funcionários do AIPAC e empregados federais e estaduais dos EUA.”
O grupo pediu que o AIPAC torne públicos os nomes das pessoas que dirigem e trabalham na organização.
“O AIPAC deveria publicar, no mínimo, uma página atualizada de liderança em seu site oficial”, disse a DAWN.
“A página deveria identificar dirigentes, conselho diretor, equipe sênior e chefes de departamento do AIPAC, com fotos e biografias. O AIPAC também deveria publicar um organograma mostrando como a instituição está estruturada. Esse é o padrão mínimo já adotado por organizações sem fins lucrativos comparáveis com isenção fiscal.”
A DAWN observou que a maioria dos principais grupos de advocacy, incluindo ela própria, publica os nomes e biografias de seus funcionários e membros do conselho.
Devido ao status de isenção fiscal do AIPAC como organização sem fins lucrativos, Shakir afirmou que os contribuintes “subsidiariam efetivamente” o grupo pró-Israel.
“Eles merecem saber como o AIPAC trabalha para moldar a política dos EUA para o Oriente Médio e quem trabalha para ela”, disse ele à Al Jazeera.
* Ali Harb é um jornalista baseado em Washington. Desde que ingressou na Al Jazeera, em 2021, tem feito ampla cobertura de eventos políticos centrais nos Estados Unidos. Anteriormente, trabalhou como repórter no Middle East Eye e no Arab American News. Seu trabalho também foi publicado pela Time Magazine. Ali liderou a equipe da página ao vivo da Al Jazeera, que venceu um prêmio Edward R. Murrow em 2025 por sua cobertura da noite da queda de Bashar al-Assad. Reportagem publicada pela Al Jazeera em 20/05/2026.
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