“Terroristas eliminados”: como a mídia de “israel” nega o assassinato de crianças palestinas

Mídia "israelense" rotula vítimas como terroristas e omite o custo humano dos bombardeios militares contra civis

02/04/2025

Uma criança palestina observa os corpos das vítimas dos ataques aéreos israelenses durante a noite no norte de Gaza, espalhados no chão em frente ao Hospital Indonésio em Beit Lahia, em 20 de março de 2025 (AFP/Bashar Taleb)

Por Nadav Rapaport*

Em um dos dias mais mortíferos em Gaza desde o início da guerra israelense em 2023, ataques aéreos mataram mais de 400 palestinos no dia 18 de março, incluindo mais de 180 crianças e 90 mulheres, em questão de horas.

Os ataques, que violaram o acordo de cessar-fogo, foram realizados durante o mês sagrado do Ramadã. Mas a cobertura da mídia israelense foi diferente da do resto do mundo.

Avi Ashkenazi, correspondente militar do jornal de direita Maariv, escreveu que “Israel queria atingir o maior número possível de membros do Hamas no primeiro ataque”, acrescentando que o mês de jejum muçulmano “ajudou a cumprir a missão”.

“O Shin Bet e a Inteligência Militar prepararam os endereços onde os membros do Hamas supostamente estariam para realizar as refeições noturnas”, escreveu Ashkenazi.

Além da perspectiva militar apresentada pela mídia israelense, o ataque e seus resultados sangrentos foram noticiados sem menção ao número de crianças mortas. Em alguns casos, todos os mortos foram rotulados como terroristas.

A narrativa da mídia israelense

Três importantes correspondentes militares israelenses relataram o bombardeio de forma semelhante, afirmando que o exército mirou “comandantes e oficiais intermediários e seniores do Hamas”.

Orly Noy, jornalista do site israelense Local Call, disse ao Middle East Eye que a cobertura tendenciosa dos ataques faz parte de um fenômeno mais amplo.

“A mídia israelense inventou um jargão alternativo para descrever as ações de resistência palestina”, disse Noy. “Para a mídia israelense, não há diferença entre atacar soldados e atacar civis.”

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Segundo Noy, essa terminologia se expandiu durante a guerra. “A mídia israelense adotou a afirmação de que não há inocentes em Gaza.”

Ela explicou que a mídia israelense não relata o impacto real dos ataques porque “está mobilizada para que [o primeiro-ministro] Benjamin Netanyahu e o exército possam continuar o genocídio em Gaza”.

“É uma continuação direta da política de ocultação da mídia israelense em relação ao público israelense”, disse Noy ao MEE.

“Terroristas eliminados”

Ohad Hemo, correspondente de assuntos árabes do Channel 12 (o principal canal de Israel), relatou que mais de 400 palestinos foram mortos no ataque. Segundo ele, “o que uma grande parte dessas vítimas tem em comum é seu papel crítico, nada menos, na estrutura civil-governamental do Hamas”.

O relato de Hemo corresponde à declaração do porta-voz do exército israelense:

“Dezenas de alvos terroristas foram atingidos para prejudicar as capacidades governamentais e militares do Hamas e eliminar ameaças a Israel, incluindo vários terroristas de nível intermediário e superior no Escritório Político do Hamas que foram eliminados.”

O Channel 13, considerado liberal, também ignorou o alto custo humano do ataque israelense.

“O cessar-fogo entrou em colapso”, dizia a reportagem. “Na Faixa de Gaza, relata-se que mais de 300 pessoas foram mortas nos ataques, incluindo altos funcionários do Hamas”, continuou, sem mencionar os civis inocentes mortos.

Não foi apenas a mídia israelense que ignorou as identidades dos mortos – em alguns casos, eles foram rotulados como terroristas ou operantes do Hamas.

O Channel 14 informou que “centenas de terroristas foram eliminados”. Segundo o correspondente militar da emissora, Hillel Biton Rosen, “conseguimos eliminar centenas de terroristas nesta noite, incluindo aqueles que ocupam um papel significativo no Hamas, bem como participantes na libertação de reféns que foram responsáveis por sua humilhação”.

Ashkenazi, do Maariv, elogiou o papel desempenhado pelo comandante da Força Aérea, Tomer Bar, e pelo chefe do Shin Bet, Ronen Bar (que Netanyahu quer demitir), no ataque mortal. Segundo ele, os dois “lideraram uma operação precisa que eliminou 300 terroristas em questão de minutos”.

“Ontem à noite, às 2h10, cerca de 300 terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica, talvez mais, receberam uma visita surpresa das bombas da Força Aérea que caíram sobre suas cabeças”, continuou Ashkenazi. “O voo foi perfeito, a operação durou não mais que 10 minutos, e todas as munições atingiram o alvo diretamente.”

Ele acrescentou que “a operação foi de tirar o fôlego”, exigindo “inteligência”, “coragem” e “profissionalismo”.

Mais desumanização

Para Noy, a ausência de menções às crianças palestinas mortas ou sua rotulação como terroristas tem outra explicação:

“Quanto mais palestinos Israel aniquila, mais desumanização precisa ser feita contra eles, porque, caso contrário, Israel terá que lidar com os horrores que cometeu em Gaza.”

Noy continua: “A mídia não pode se dar ao luxo de retratar os palestinos como humanos, caso contrário, a guerra não poderá continuar. A mídia israelense age de acordo com o espírito da legislação do ministro das Comunicações, Shlomo Karei, que proíbe prejudicar o moral do povo.”

De acordo com as regulamentações de Karei, o ministro poderá ordenar a prisão de cidadãos que divulgarem informações que prejudiquem o moral israelense ou sejam usadas para propaganda inimiga.

Não foram apenas os veículos de direita que descreveram os mortos como terroristas. O Channel 12 exibiu imagens de altos funcionários do Hamas mortos no ataque, com a legenda: “O Hamas foi pego de surpresa. Cerca de 400 operantes foram mortos.”

Barak Seri, comentarista do Channel 12 e da Rádio 103, escreveu logo após os primeiros relatos do ataque: “O cessar-fogo entrou em colapso esta noite. Um ataque aéreo israelense em Gaza, a eliminação de mais de 200 terroristas.”

“O Channel 12 finge operar dentro de um quadro de ética jornalística e trabalho confiável, mas na prática transmite as mesmas mensagens” dos canais de direita, diz Noy.

“O israelense médio obtém suas informações do Channel 12 e percebe essa cobertura como fatos.”

Como resultado, “a decepção do Channel 12 é ainda maior” do que a do Channel 14, conclui Noy.

* Direto de Tel Aviv. Reportagem publicada em 20/03/2025 no Middle East Monitor.

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