Documentário brasileiro sobre a Palestina estreará em junho no Festival Internacional de Curitiba
Filme traz imagens da Palestina desde o início do século XX, com trabalho in loco e utilização do material produzido pelo povo de Gaza em meio ao genocídio cometido por "israel" desde o 7 de outubro
Obra tem estreia marcada para o dia 14 de junho
O documentário Notas sobre um Desterro, do diretor Gustavo Castro, terá sua estreia nacional no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, em 14 de junho. O filme-ensaio oferece uma narrativa contundente sobre a ocupação sionista da Palestina, a partir da perspectiva íntima de uma família palestina-brasileira da Cisjordânia, e de imagens registradas entre 2018 e o genocídio em Gaza iniciado em 7 de outubro de 2023.
O longa revisita registros audiovisuais feitos inicialmente para o projeto Coexistências, que pretendia investigar as possibilidades de convívio pacífico em uma terra marcada por décadas de colonização brutal. No entanto, a ofensiva de extermínio promovida por “israel” à Faixa de Gaza mudou completamente a natureza do projeto. A obra, que caminhava para ser um retrato de esperança, se tornou um grito de denúncia, reconfigurado como Notas sobre um Desterro.
“Diante do que aconteceu [a partir do final de] 2023, fomos forçados a revisitar essas imagens [captadas em 2018] com outros olhos e pensar novas narrativas que pudessem ajudar a contar o que acontece na Palestina hoje”, diz o diretor ao site da Fepal. “Principalmente porque observamos uma disparidade muito grande entre o que chega de informação na mídia e aquilo que realmente é a realidade in loco, que vem vai para a Palestina e se abre para ter um pouco de empatia com o povo palestino pode perceber.”
A mudança de foco reflete também uma virada ética e política na forma de se fazer documentário em tempos de hiperconexão e espetacularização da dor. Em vez de recorrer a imagens produzidas por grandes veículos ou pelas forças em conflito, Notas sobre um Desterro se debruça sobre registros captados pelas vítimas palestinas — vídeos curtos, depoimentos caseiros, imagens tremidas de destruição, luto e resistência que circulam diariamente nas redes sociais, muitas vezes ignoradas ou descontextualizadas pelas mídias hegemônicas.
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Segundo os realizadores, esse gesto é também uma recusa ao discurso dominante. “A cobertura midiática tradicional tende a reforçar uma narrativa pró-Israel, ignorando o cerceamento da liberdade dos palestinos e a brutalidade da ocupação. Esse discurso oficial, amplamente disseminado pelos principais veículos de comunicação, promove uma compreensão superficial e tendenciosa do conflito, dificultando que as vozes dissidentes alcancem a visibilidade necessária. O cinema, portanto, surge como um meio crucial para questionar essas estruturas e apresentar perspectivas que raramente encontram espaço na grande mídia.”
“O filme propõe uma reflexão sobre as imagens que vêm de Gaza, que são registradas e compartilhadas por civis nas redes sociais, porque elas inauguram um novo capítulo nas histórias de imagens de guerra. [Essas imagens] não apenas documentam o horror em curso, mas convocam a gente a testemunhar, a não desviar o olhar, a se posicionar diante de uma obscenidade histórica que insiste em se repetir”, avalia Castro.
Esse novo momento para o cinema palestino contemporâneo (feito por palestinos ou sobre palestinos) ganhou impulso com a consagração do documentário No Other Land no Oscar de 2024. A vitória inédita da produção palestina abriu portas simbólicas e práticas para obras que abordam com profundidade a ocupação e a luta por liberdade. O reconhecimento serviu de catalisador para que projetos como Notas sobre um Desterro possam ser recebidos com mais atenção e urgência pelos curadores de festivais e agentes do setor audiovisual.
“A gente vive um tempo em que o apagamento não se dá mais pela ausência de informação e de imagens, e sim pela excesso. Então, diante dessa superabundância de imagens que somos bombardeados diariamente, cresce um sentimento de indiferença, como se essas imagens se tornassem todas iguais, levando a uma diluição da narrativa e à dispersão da empatia. Assim, corremos o risco do esquecimento antes mesmo de ver essas imagens”, completa. “O documentário nasce da urgência de romper com esse ciclo: de parar de olhar de novo, de reconstruir um fio narrativo ao qual essas imagens pertencem. Essas imagens precisam ser escancaradas.”
Com mais de 15 anos de atuação como educador popular e documentarista, Gustavo Castro construiu uma carreira voltada à abordagem de questões sociais, políticas e culturais na América Latina, Amazônia e Oriente Médio. Sua filmografia inclui mais de 30 obras documentais, entre elas A Fortaleza (2021), Afegãos no Brasil (2022) e Cidade ao Redor (2017), todas comprometidas com uma estética de proximidade e escuta ativa.
A exibição em Curitiba é uma oportunidade onde o público pode aprofundar questões sobre o papel do Brasil no contexto internacional, as políticas de comunicação e a solidariedade ativa com o povo palestino. Em meio à atual fase de genocídio em Gaza, o lançamento do filme se mostra um gesto de resistência, sensibilidade e urgência — atributos essenciais para um cinema que se propõe não apenas a registrar o mundo, mas a transformá-lo.
Notas sobre um Desterro segue agora para uma trajetória que promete ecoar muito além das telas, contribuindo para o fortalecimento de narrativas que enfrentam o apagamento e denunciam a lógica brutal da ocupação e do apartheid ilegais de “israel”. Em tempos de barbárie, o filme de Castro se firma como um documento necessário — e como um chamado à ação.
Fica técnica:
Notas sobre um Desterro (Brasil, 2025, 80min)
Direção: Gustavo Castro
Produção: Juliana Sanson e Rafael Oliveira
Empresa Produtora: Fabulário Filmes
Roteiro: Juliana Sanson, Ticiano Monteiro e Gustavo Castro
Edição: Ticiano Monteiro
Direção de Fotografia: Gustavo Castro
Som: Ulisses Galetto
Elenco: Gustavo Castro, Mohamed Abdel Latif, Ruayda Rabah, Mohamed Khaled Latif, Jamile Abdel Latif, Jihad Mohamad Habas, Ali Abour, Nicola Shaheen, Husney Wasef, Ualid Rabah
Serviço:
O quê? Notas sobre um Desterro
Quando? Sábado (14/06), às 13:30 e quarta-feira (18/06), às 18:45
Onde? Festival Internacional de Curitiba (Cine Passeio, Sala Luz – Rua Riachuelo, 410 – Centro, Curitiba)
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